Críticas


LEITOR, O

De: STEPHEN DALDRY
Com: RALPH FIENNES, KATE WINSLET, DAVID KROSS
07.02.2009
Por Marcelo Janot
LEITURA SUPERFICIAL

A Academia de Hollywood adora o diretor inglês Stephen Daldry, que surgiu com o simpático Billy Elliot e depois fez As Horas. O Leitor, seu terceiro filme, rendeu a ele sua terceira indicação ao Oscar de melhor diretor, e assim como As Horas, também concorrerá às estatuetas de melhor filme, roteiro e atriz, além de fotografia. Tanto apreço é justificável pelo que se vê na tela: afinal, Daldry é um bom diretor e O Leitor, assim como os outros dois, tem narrativa envolvente e atuações impecáveis (sobretudo de Kate Winslet e do jovem ator alemão David Kross).



O filme é baseado no romance do escritor alemão Bernhard Schlink, publicado em 1995. Além de escritor, Schlink também é jurista e a trama é em parte autobiográfica. Isso explica porque temos em cena um drama de tribunal que utiliza o nazismo para propor reflexões sobre culpa e perdão, ao mesmo tempo em que valoriza a importância da literatura como fator de integração social – quem lembra de “As Horas” percebe que a literatura se consolida como uma das obsessões de Daldry e do roteirista David Hare.



O filme começa de forma avassaladora e intrigante, com a relação entre Hanna (Winslet) e Michael (Kross) sendo construída com a intensidade que pede uma relação sexual edipiana entre um menino de 15 anos e uma fraulein balzaca que só se dirige a ele chamando-o de “garoto”, mesmo quando os dois passam a estabelecer uma relação mais contínua. Curioso observar a inversão de papéis em certos momentos, especialmente quando Hanna chora no colo de Michael enquanto ele lê para ela.



Vemos Hanna como um ser humano enigmático, e quando os segredos vêm à tona, continuamos enxergando-a como um ser humano. O dilema ético pelo qual passa o Michael jovem e que o acompanhará até sua fase adulta é o ponto nevrálgico do filme, que trata de um tema delicado e ainda muito polêmico (vide a celeuma em que o Papa Bento XVI se meteu recentemente). O problema está na forma superficial com que o roteiro junta esses elementos, praticamente reduzindo tudo a um eficiente porém corriqueiro melodrama de tribunal.



O que incomoda mais é essa mania hollywoodiana de menosprezar a capacidade de raciocínio do espectador, recorrendo a soluções fáceis para antecipar o que já estava explícito, especialmente no que concerne ao analfabetismo de Hanna e à introspecção do Michael adulto. Duas cenas exemplificam bem isso: Hanna e Michael vão comer algo num restaurante durante um passeio e ela não consegue ler o cardápio, numa mensagem um tanto óbvia; no caso da introspecção de Michael (Ralph Fiennes), isto já era claro desde a primeira cena, em que ele troca meia dúzia de palavras com uma mulher que acabou de passar a noite em sua cama – mas é preciso que ele verbalize isso mais tarde, em diálogo com a filha, deixando tudo mastigadinho pra que nenhum espectador tenha dúvidas.



Resultado: outro bom filme em potencial prejudicado pela falta de ousadia.



#O LEITOR (THE READER)

EUA/Alemanha, 2008

Direção: STEPHEN DALDRY

Roteiro: DAVID HARE, baseado em livro de Bernhard Schlink.

Fotografia: ROGER DEAKINS e CHRIS MENGES

Edição: CLAIRE SIMPSON

Direção de Arte: CHRISTIAN M. GOLDBECK e ERWIN PRIB

Música: NICO MUHLY

Elenco: RALPH FIENNES, KATE WINSLET, DAVID KROSS, BRUNO GANZ, LENA OLIN

Duração: 124 minutos

Site oficial: www.thereader-movie.com

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