Especiais


12ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

24.02.2009
Por Daniel Schenker
INSTIGANTES EXPERIÊNCIAS SONORAS

Numa época em que boa parte do público não parece muito disposta a entrar em contato com o desconhecido, a programação da 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes caminhou de forma corajosa na contramão a tendências de mercado. Os filmes concorrentes na Mostra Aurora, destinada aos primeiros e segundos longas-metragens dos diretores, revelaram disposição para a experimentação.



Talvez seja possível detectar tendências comuns entre as produções, como a adoção da memória como universo temático (não só nos integrantes da Aurora). Particularmente em relação aos vencedores da Mostra – A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida da Mulher Gorila , de Felipe Bragança e Marina Meliande, contemplado com o prêmio de melhor filme concedido pelo júri da crítica e pelo júri jovem, e A Casa de Sandro , de Gustavo Beck, ganhador da menção honrosa do júri da crítica –, pode-se destacar o uso do som ambiente como elemento determinante no processo de construção e uma despreocupação (ainda maior no segundo que no primeiro) em suscitar empatia no espectador por meio das personagens.



...A Vida da Mulher Gorila valoriza, como seria de se esperar, o modo de filmar em detrimento de uma história. A viagem de duas irmãs proporciona ao público um passeio por modos de representar e de dizer. As atrizes transitam entre a evocação de cantigas (através de vozes personalizadas e frágeis) e um certo naturalismo (sem que se busque uma projeção vocal tradicional a fim de que a plateia escute tudo o que é dito). Esta tendência surge sintetizada na cena em que os personagens ensaiam entonações diferentes para uma mesma fala (“Não, não, ele está com a arma”).



Poucas explicações são fornecidas. Às vezes, o público se depara com frases importantes, enunciadas fora de contexto: “Minha irmã tem um coração bom. E eu só tenho raiva e saudade”, diz uma das personagens. Mas é possível detectar alguns sinais. A viagem das irmãs é preenchida com convenções do imaginário suburbano: videokês, estampas, cortinas coloridas, trilha derramada, leite de rosas, espelhinhos e a própria concepção ingênua do espetáculo da Mulher Gorila. Os diretores investem numa simbiose entre a plateia do filme e a do número da Mulher Gorila. Para tanto, Bragança e Meliande “posicionam” os espectadores no lugar dos que “assistem” à apresentação. A diferença é que o público do filme não sai correndo da sala de projeção ao se deparar com a transformação da mulher em gorila, efeito ocasionalmente suscitado em parques de diversões. ...A Vida da Mulher Gorila acaba chamando atenção para a distância entre o impacto gerado pelo espetáculo ao vivo e por aquele que não se realiza através da presença viva do ator/performer, ainda que alguns filmes consigam produzir no público a impressão de presente imediato.



Menção honrosa do júri da crítica, A Casa de Sandro subverte aquilo que se convencionou como sendo mais importante num filme que, como parece anunciar o título, é centrado num personagem. Ele, de fato, está na tela: trata-se do pintor Sandro Donatello Teixeira. Mas o diretor Gustavo Beck não o apresenta ao espectador. Do início ao fim da projeção, o público só ouve de Sandro uma frase digna de nota: “O homem é quem cria as duas próprias doenças”. Propositadamente, durante boa parte do tempo – em especial, nos primeiros minutos –, a plateia não consegue entender o que as pessoas falam na tela. O som decorrente do que se diz é bem mais relevante do que aquilo que se diz.



É como se Sandro fosse quase veículo de uma instigante experiência sonora, constituída pela mescla entre sons naturais (os da natureza) e sons produzidos (os de dentro de casa, da voz de Sandro e de seu pincel riscando a tela). Uma mistura que talvez possa aludir à criação do mundo e à criação artística. O diretor não facilita a vida do espectador – e esta é uma qualidade de A Casa de Sandro – que, além de não ter acesso ao conteúdo da fala de Sandro, se depara com obstáculos para ver o personagem. Em vários momentos, o público é colocado na posição de observador distanciado, só conseguindo enxergar Sandro através da tela embaçada ou de vidraças, e confrontado com uma noção de tempo bem mais contemplativa e exasperante, em comparação com o ritmo dos dias que correm.



A Fuga, A Raiva, A Dança, A Bunda, A Boca, A Calma, A Vida da Mulher Gorila e, principalmente, A Casa de Sandro são filmes que têm muito poucas chances de reunir uma quantidade considerável de espectadores num momento em que a maior parte do público se mostra disposta a prestigiar tão-somente produtos que seguem uma receita de sucesso, como Se eu fosse Você 2 , de Daniel Filho, ou que desembarcam promovidos pelos holofotes do Oscar. Felipe Bragança, Marina Meliande e Gustavo Beck se colocam num lugar difícil, solitário, ao – feito raro – bancarem suas escolhas até o fim.

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