Críticas


SIMPLESMENTE FELIZ

De: MIKE LEIGH
Com: SALLY HAWKINS, EDDIE MARSAN, ALEXIS ZEGERMAN
31.03.2009
Por Daniel Schenker
OTIMISTA AUTÊNTICA OU SEDUTORA DE PLANTÃO?

Logo numa das primeiras cenas desse novo filme de Mike Leigh, Poppy entra numa livraria, puxa papo com o vendedor, que não está para conversa, avista um livro na prateleira intitulado O Caminho para a Realidade e exclama sem hesitação: “Não quero ir para lá”. A possível negação do real suscita certo interesse em torno da protagonista. Seria Poppy uma otimista autêntica, propensa a sempre valorizar o tal lado bom das coisas – simplesmente feliz, como anuncia o título – ou uma sedutora de plantão?



Leigh acena para a segunda alternativa, em especial na sequência do confronto entre Poppy e Scott, seu instrutor na auto-escola, que, apesar de um tanto recalcado, frisa com boa dose de razão que a moça gosta de se colocar no centro das atenções. De fato, todos giram ao redor de Poppy. Os personagens coadjuvantes, inclusive, deixam a impressão de terem sido criados com o intuito de fornecer informações, novas perspectivas, sobre ela. É como se a construção do roteiro, também de Leigh, ficasse à mostra.



Em relação aos tipos mais complexados – como o já citado instrutor, a irmã mais nova, dedicada a buscar garantias e atribuir responsabilidades, e a professora de flamenco, um tanto comprometida com o fundo passional do ritmo que ensina –, Poppy funciona como oposição. É a mais descomplicada do pedaço. Não por acaso, pergunta ao atormentado instrutor: “Não é fácil ser você, é?”



Eventuais exibicionismos à parte, Mike Leigh procura mostrar que Poppy não deve ser considerada (tão-somente) como uma alegre fanática, na linha do Roberto Benigni de A Vida é Bela , mas como alguém em processo de maturidade. A inserção do aluno problemático, a quem ela se dedica, visa aparentemente a sublinhar essa transição, também destacada pelo cineasta através de vários elementos. Na primeira metade de Simplesmente Feliz , o excesso predomina: no comportamento de Poppy, na sobreposição de tecidos nas roupas, na casa entulhada. Jogam até um pedaço de frango, usado providencialmente por uma das amigas de Poppy para aumentar os seios, no sofá. À medida que o filme caminha para o fim, tudo (a começar pelo guarda-roupa) vai se tornando um pouco mais discreto. Resta saber se o frango já foi removido de lá.



# SIMPLESMENTE FELIZ (HAPPY-GO-LUCKY)

Inglaterra, 2008

Direção e Roteiro: MIKE LEIGH

Produção: SIMON CHANNING WILLIAMS

Fotografia: DICK POPE

Montagem: JIM CLARK

Música: GARY YERSHON

Elenco: SALLY HAWKINS, EDDIE MARSAN, ALEXIS ZEGERMAN

Duração: 118 minutos

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário