Críticas


VALSA COM BASHIR

De: ARI FOLMAN
05.04.2009
Por Carlos Alberto Mattos
ENTRE O FATO E O TRAÇO, UMA GUERRA NA CONSCIÊNCIA

A memória, tal como o cinema, equilibra-se numa corda esticada entre o fato e a ficção. Existem fatos de que podemos nos “lembrar”, por força de algum tipo de sugestão, sem que nunca os tenhamos vivido. Outros que vivemos efetivamente desaparecem nos buracos negros da memória, seja por culpa, censura ou qualquer outro processo. O diretor e roteirista Ari Folman decidiu usar uma experiência pessoal como plataforma de criação para um filme que não só tratasse desse tema, mas o expressasse em sua própria estutura.



Folman era um jovem soldado israelense que participou da invasão do Líbano em 1982. Suas lembranças da guerra, contudo, estavam borradas por um trauma. Ele, cujo pai estivera em Auschwitz, não sabia dizer até que ponto tomou parte nos eventos que levaram a um dos mais terríveis episódios do conflito palestino-israelense, o massacre de milhares de refugiados palestinos nos campos de Sabra e Shatila. À época, o Ministro da Defesa de Israel, Ariel Sharon, aproveitou a invasão da fronteira sul para ocupar também Beirute e colocar o cristão Bashir Gemayel na presidência do Líbano. Bashir, porém, foi assassinado. Em represália, as falanges cristãs cometeram a chacina de Sabra e Shatila. Folman e seus companheiros estavam ali perto, apoiando ou pelo menos omitindo-se (como o governo israelense) diante da barbárie cometida por seus aliados.



Waltz with Bashir é um sofisticado exercício de cinepsicanálise. Motivado pelo relato de um sonho de um ex-companheiro de tropa, Folman passou a entrevistar outros que estiveram com ele na invasão. A intenção era usar as memórias dos outros para reavivar as suas. As conversas foram gravadas num estúdio e reproduzidas em animação como se ambientadas em diferentes situações. A partir dos diversos relatos, foram desenvolvidas as animações para as cenas de guerra.



Embora o documentário seja o magma de toda a operação, o realismo não é a meta do filme. Ari Folman dissolve recordações em projeções do desejo e em delírios surreais, cujo fluxo é subitamente cortado por choques de “realidade”. As imagens da guerra chegam não como simples ilustração do que é contado oralmente, mas como figuração de hipóteses, exacerbação de sentidos, condensação de percepções que ligam o imaginário do jovem israelense dos anos 1980 à vivência da guerra.



Os desenhos de David Polonsky e a animação de Yoni Goodman oferecem a Ari Folman a liberdade necessária para exprimir um processo puramente mental, que envolve saltos no tempo e no espaço, movimentos inconcebíveis para o mundo físico e, é claro, uma enorme economia de meios materiais para filmes do gênero. A aparição de imagens reais de Sabra e Shatila na última seqüência equivale ao clímax do processo de evocação: o documento em si ocupa o lugar do simulacro gráfico. Ari Folman recupera a memória obstruída.



O filme talvez não seja a maravilha revelatória que se vem apregoando desde sua passagem por Cannes, em maio último. Pode-se questionar por que reproduzir as entrevistas em animação, se ali nada de essencial é alterado. Pode-se fazer uma série de perguntas sobre o “esquecimento” de Ari Folman, embora me pareça que este é mais um pretexto para se desfazer do trauma do que uma inquisição real de sua memória. Mas o que me pareceu mais interessante em Waltz with Bashir, para além de sua expressiva animação e fortíssima trilha sonora, foi essa proposta narrativa que alia o documentário, a investigação psicanalítica e o acento pop inerente à animação. É, no mínimo, muito melhor do que as chatíssimas rotoscopias de Richard Linklater (Waking Life, O Homem Duplo).





VALSA COM BASHIR (WALTZ WITH BASHIR)

Israel etc, 2008

Direção e roteiro:
ARI FOLMAN

Direção de arte: DAVID POLONSKY

Animação: YONI GOODMAN

Edição: FELLER NILI

Música: MAX RICHTER

Duração: 90 minutos

Site oficial: clique aqui

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