Críticas


PAULO GRACINDO – O BEM AMADO

De: GRACINDO JUNIOR
Com: PAULO GRACINDO, FERNANDA MONTENEGRO, PAULINHO DA VIOLA, BIBI FERREIRA, LIMA DUARTE.
09.05.2009
Por Patricia Rebello
EM NOME DO PAI, DO FILHO E DOS FILMES-BIOGRAFIA

A beleza de Paulo Gracindo – O Bem Amado passa tanto por uma vontade de contar como Pelópidas Guimarães Brandão Gracindo se tornou o ator Paulo Gracindo, como pela delicada construção do olhar de um filho sobre um pai. Porque de tanto viver mergulhado em textos e misturado a personagens, diz Gracindo Jr. – diretor -, quem sabe ele, o filho, não tenha transformado o que viveu na vida, com o pai, em uma grande ficção? E é exatamente porque se assume na fronteira entre compromisso de verdade, e a vida como palco, como projeto de encenação, que o documentário se destaca da média dos filmes-biografia, um filão tão prolífico e característico na produção contemporânea de documentários.



Contar a história de Paulo Gracindo é, em grande medida, falar da instituição da indústria do audiovisual no país; falar sobre os tipos e personagens criados pelo ator, de como o próprio país foi atravessado por essa indústria. Odorico Paraguaçu, Quincas Berro D’Água, Tucão, Primo Rico e Coronel Ramiro Bastos, entre outros, são testemunhos das épocas que habitaram, e também termômetros para a forma como o mundo se fazia palpável. Se o Primo Rico foi inspirado nas conversas travadas entre o próprio Gracindo e o sogro rico, o Don Julio Fuentes, de Terra em Transe, de Glauber Rocha, e o inesquecível Odorico Paraguaçu sintetizaram idiossincrasias e questões contemporâneas e ainda hoje pertinentes.



Narrado em uma primeira pessoa que confunde as palavras do pai na voz do filho, e faz do discurso do filho uma continuação da existência do pai, tecido entre imagens de arquivo pessoal, de momentos da carreira do ator e da história do país, o documentário tanto inscreve a obra de Paulo Gracindo a partir do contexto em que ela aconteceu, das amizades que encontrou pela vida – como as indefectíveis parcerias com Fernanda Montenegro e Lima Duarte -, quanto a justifica através das derivas da vida nacional. O resultado disso tudo é menos a precisão do retrato que a tentativa de dar conta de uma pessoa a partir de seus passos e suas invenções. Por isso, o documentário é tanto sobre Paulo Gracindo quanto sobre Gracindo Jr; tanto o retrato de um pai quanto o autorretrato de um filho construindo o pai . E dada a quantidade de familiares envolvidos no projeto – espere pela lista de créditos e confira a quantidade de “Gracindos” na produção – é quase surpreendente que o filme consiga ser mais que uma homenagem ao ator.



É importante ressaltar a dimensão autobiográfica do documentário porque é dela que nasce um tema que atravessa o filme do começo ao fim: para além de uma imagem do pai, existe a busca do diretor pela essência do ofício do ator. E a boa sacada de Gracindo Jr. foi apostar menos na construção de estereótipos – tão frequentes hoje – que no processo de invenção, próprio da condição do ator. Talvez a ideia do filme seja menos traçar um retrato que responder a uma pergunta: o que é atuar? E se assim for, uma boa pista está na excepcional e inesquecível interpretação de Fernanda Montenegro para o poema O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade, que, no documentário, comenta a relação entre Paulo Gracindo e a esposa, Dulce. Mais que palavras e ritmos, forma e conteúdo, trata-se de puro kairós, da produção de um tempo sobre-humano, que não se exprime em horas e suas divisões, mas em sua natureza divina, própria e intransferível da experiência vivida.



# PAULO GRACINDO – O BEM AMADO

Brasil, 2007

Direção e Roteiro: GRACINDO JR.

Produção: DANIELA GRACINDO

Fotografia: LULA ARAÚJO

Montagem: PEDRO GRACINDO

Som: PEDRO MOREIRA

Elenco: PAULO GRACINDO, FERNANDA MONTENEGRO, PAULINHO DA VIOLA, BIBI FERREIRA, LIMA DUARTE, EVA WILMA.

Duração: 80 minutos

Site oficial: clique aqui

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