Críticas


EQUILIBRISTA, O

De: JAMES MARSH
Com: PHILIPPE PETIT, JEAN FRANÇOIS HECKEL, JEAN-LOUIS BLONDEAU, ANNIE ALLIX.
08.05.2009
Por Patricia Rebello
QUANDO A CORDA (NEM SEMPRE) ARREBENTA DO LADO MAIS FRACO

Não fosse um dente doente, e provavelmente Philippe Petit não teria cruzado as torres gêmeas do World Trade Center sobre um cabo de aço, a mais de 400 metros de altura do solo, numa nebulosa manhã de agosto de 1974. Nem o diretor James Marsh receberia o Oscar de melhor documentário em 2009. Nem você teria o prazer de assistir O Equilibrista, filme que narra a aventura do jovem francês. Empreitada de peso; ou, talvez, “sem peso”: porque é pela leveza das imagens, e pela forma como a história é contada, que esse delicado documentário, de trilha sonora minimalista de Michael Nyman, ganha o coração do público. Menos por consolidar o feito como uma redenção do personagem, que por uma vontade de compartilhar sensações e emoções que culminaram na travessia. Até porque, como diz Petit, não é uma questão de “porquês” – simplesmente as melhores coisas da vida, as experiências que mais nos acrescentam, dificilmente partem de “porquês”. São viscerais e persistentes; assim como uma dor de dente caprichada.



Eram finais dos anos 1960, a França ainda estava fresquinha dos acontecimentos de maio de 1968, e ter mais de 20 anos parecia ser um desperdício. Tudo começou quando Petit, esperando por uma consulta no dentista, deu de cara com um artigo de revista sobre as torres, ainda não concluídas (elas só ficariam prontas no começo da década de 1970). Do dente, não se tem notícias, se curou, quebrou ou caiu. Mas a partir daquele momento, o franzino francês – com um histórico de péssimo aluno, batedor de carteiras e malabarista de rua – colocou na cabeça que iria percorrer o vácuo entre os dois prédios. “Terei dor de dentes por uma semana, mas o que é uma dor, agora que tenho um sonho?”, diz ele. Fecha aspas, ponto e parágrafo.



A boa pegada do documentário é se prender menos à organização cronológica da narrativa, que em brincar com os diversos tempos que estruturam a história. Essa ordem ajuda a perceber uma dimensão fundamental em qualquer filme de reminiscência e memória: elas nunca são estáveis, e estão sempre condicionadas a refletir um pouco do espaço e do tempo em que são convocadas. Marsh constrói o roteiro em três instâncias: há os testemunhos dos participantes no presente; as imagens do passado (uma excepcional documentação do making of feita pelo grupo); e as encenações fake do evento. É no diálogo entre esses tempos, entre a descrição de uma cena e sua encenação; entre um ato de rememoração e a recuperação de uma imagem para comentá-lo, ou complementá-lo; entre o discurso de Petit e a dramatização dessa fala (o filme é baseado nas histórias contadas no livro To Reach the Clouds, de 2002, escrito pelo próprio protagonista), que o filme aposta seu ritmo. O resultado é uma crescente tensão que sublinha a trama da história. Sabemos de antemão, é claro, que a experiência foi bem sucedida, e que Petit sobreviveu. Mas interessam mesmo o sabor e a paixão com que são contadas as histórias, e narradas as lembranças.



E por falar sobre essa incrível capacidade das imagens de criarem vida própria, não deixa de ser interessante pensar um pouco sobre as fotos das torres gêmeas que atravessam o documentário. Desde o atentado de 2001, provavelmente todos nós já recebemos algum e-mail contendo “imagens inéditas”, “imagens chocantes” ou “imagens de arquivos secretos”. É bem possível que nosso imaginário do WTC, hoje, seja forjado por imagens ligadas àquele momento específico, congelado no tempo. Aqui, ao contrário, temos a chance de retomar imagens que remetem ao lado diametralmente oposto: trata-se de vislumbrar a gênese das torres: plantas de obra, operários caminhando pelo sítio da construção, a empolgação contida em um projeto audacioso, e no orgulho que isso representou para o país (e o que isso nos diz sobre esse país). Se é possível vislumbrar algum sentido de redenção em O Equilibrista, que ele seja, então, a chance para fazermos as pazes com as belas imagens das torres. Desta vez, subindo fulgurantes em direção ao céu. E abrigando no enorme vazio que um dia as separou a figura do pequeno e flutuante Philippe Petit.



O EQUILIBRISTA(MAN ON WIRE)

EUA/Inglaterra, 2008

Direção: JAMES MARSH

Produção:SIMON CHINN

Fotografia:IGOR MARTINOVIC

Montagem:JINX GODFREY

Música:MICHAEL NYMAN

Baseado no livro To Reach the Clouds, de Philippe Petit

Duração:90 minutos

Site oficial: clique

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