Críticas


ÔRI

De: RACHEL GERBER
22.05.2009
Por Patricia Rebello
<i>SNAP-SHOTS</i> DE UM MOVIMENTO PELA LIBERDADE NEGRA

Um filme pode surgir a partir de um encontro, e se consolidar como produto de duas idéias que se encantam entre si. Como celebração de um estágio de vida, como um rito que organiza passado, presente e futuro em matrizes de identidade. Um filme pode ser Ôrí, termo de origem yorubá que significa um pouco de tudo isso. Foi assim com a historiadora e ativista Beatriz Nascimento e a cineasta Raquel Gerber, diretora de um documentário que opera como uma “antropologia de faces gloriosas” da nação negra, raciocinando menos em termos de espaços que de imaginários. Rodado durante 11 anos, entre 1977 e 1988, em meio a um período turbulento no Brasil, Ôrí é relançado nos cinemas em um tempo bastante diferente, onde a militância pelos direitos raciais se encontra num estágio muito mais organizado e representativo, política e socialmente.



A referência ao belo trabalho de Arthur Omar, um projeto de exploração poética do rosto humano em estados de êxtase carnavalesco, não é gratuita. Mas se a antropologia de Omar busca retirar cada face de seu contexto e fazê-la viver por si mesma, com suas ambiguidades inerentes, a antropologia de Raquel Gerber pega a questão pelo outro lado. Trata-se de explorar uma poesia da raça negra naquilo que surge do coletivo, das práticas que unem e fortalecem a comunidade. E considerando tratar-se de um período em que qualquer manifestação do gênero era rapidamente rechaçada, e tachada como ‘ato impatriótico’ e baderneiro, o viés subjetivo da reconceitualização do quilombo menos como espaço de fuga que como símbolo de liberdade é a pegada corajosa deste filme.



O fio condutor do documentário, que teve uma projeção especial na edição do Festival É Tudo Verdade deste ano, são as reflexões de Beatriz, que vai buscar sua identidade na pesquisa histórica dos quilombos. Quais os quilombos da contemporaneidade? é a grande pergunta que atravessa o filme. Quais os lugares onde a comunidade negra reencontra e legitima suas raízes? Quais os lugares onde essas raízes reverberam para um sentimento de identidade afro que fortalece o sentido humano? Escola de samba, terreiros de macumba, certas danças como o reggae, a soul music e o funk, certos penteados. Sublinhado por um texto em off da historiadora, Ôrí traça um cordão umbilical entre a cultura negra da África Ocidental (Senegal, Mali e Costa do Marfim) e a do Brasil, para onde foi trazida com a escravidão. Ao som da belíssima trilha de Naná Vasconcelos, o documentário de Gerber é uma delicada obra que mostra o quanto da cultura negra ainda existe para ser (re)explorado.



ÔRI

Brasil, 1989

Direção e Produção: RAQUEL GERBER

Texto:BEATRIZ NASCIMENTO

Fotografia:JORGE BODANZKY, HERMANO PENNA, PEDRO FARKAS

Montagem:RENATO NEIVA MOREIRA E CRISTINA AMARAL

Música:NANÁ VASCONCELOS

Duração:91 minutos

35 mm, cópia restaurada digitalmente em Hdcam SR

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