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ENTREVISTA COM RICARDO DIAS

05.06.2009
Por Leonardo Luiz Ferreira
ENTREVISTA COM RICARDO DIAS

O documentário brasileiro vive um momento de reverência aos músicos e compositores da MPB. Um filão foi descoberto e tem levado bastante público para as salas de cinema em fenômenos até mesmo inesperados, como o caso de Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer. Agora chega ao circuito mais um exemplar da safra com Um Homem de Moral, de Ricardo Dias. E mais importante do que prestar uma homenagem ao compositor Paulo Vanzolini, o filme revela inúmeras canções clássicas para uma nova geração e um personagem inteiramente cinematográfico, com seu jeito particular de contar histórias.



Na entrevista exclusiva, o diretor Ricardo Dias fala como surgiu o projeto e relata, entre outros temas, os pormenores de sua realização.



Você filmou com o Paulo Vanzolini em 1992 e 95 (No Rio das Amazonas). Quando percebeu que ele daria um documentário à parte sobre a sua carreira musical?

Ricardo Dias: Ele nunca foi um projeto específico, mas acabou acontecendo devido às circunstâncias. O Vanzolini me avisou sobre as gravações de uma caixa de Cds sobre a sua carreira em uma espécie de acerto de contas com sua carreira musical. Aí perguntei se tinha alguém já gravando os encontros e ensaios. Ele me disse que não, então, passei a filmar em um registro informal. No primeiro dia, levei fotógrafo e percebi nitidamente que estava atrapalhando a gravação com a luz e movimentação de câmera. A partir daí, resolvi filmar sozinho com uma câmera pequena e sem luz. A importância era o registro daqueles momentos. Isso tudo no ano de 2002. O documentário virou um projeto e aconteceu de fato quando recebi um prêmio da Secretaria de Cultura de São Paulo, em 2006. Mediante a premiação, fui filmar cenas adicionais e construir o filme para um futuro lançamento no cinema.



O documentário é guiado pelos depoimentos de Vanzolini, com ilustrações para as letras das músicas e um show em sua homenagem. Como você definiu a estrutura do filme?

R.D.: Desde o começo, eu sabia que a participação do Paulo era o elemento mais importante do documentário. Ele tem carisma e faz com que o espectador preste atenção nele. Partindo desse princípio, tento explorar a sua graça em frente à câmera, mesmo que brevemente. Porque o Vanzolini conta às histórias de um jeito divertido. Depois do show em sua homenagem, ele sofreu um enfarte e passou a diminuir o ritmo de trabalho: chegou a se aposentar do museu onde trabalhava como pesquisador. Mas ele está bem em casa agora. Para essa estrutura do filme, segui uma dica do cineasta Djalma Limongi Batista, que conhece o Vanzolini desde criança. Ele me disse para não perder tempo com entrevistados falando sobre sua obra, pois o Paulo se basta ao falar de si. Ou seja, em Um Homem de Moral nós temos uma pessoa falando dela mesma, o que é raro em documentários. Só me lembro de um exemplo recente: Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris [N.R.: documentário, que foi vencedor do Oscar da categoria, sobre um ex-secretario de defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, e suas reflexões a respeito dos confrontos bélicos do século XX. O filme está disponível em DVD no Brasil].



A obra se inicia com uma espécie de sinfonia da metrópole de São Paulo e ressalta que a fonte de inspiração do músico é a observação do cotidiano. Fale sobre as opções de montagem para o longa.

R.D.:Uma referência importante para a edição foi o filme Woodstock [N.R.: dirigido por Michael Wadleigh, a produção registra os clássicos shows em 1969, que redefiniram a cultura. A obra está disponível em DVD no Brasil]. No primeiro dia de montagem, sentei com o Marcello Bloisi e assistimos ao longa. Temos uma relação muito íntima; algo importante entre diretor e montador. No caso de Woodstock, a montadora é a Thelma Schoonmaker, que é parceira de Martin Scorsese. Nós descobrimos que ela está por trás de todo o processo de estruturação do filme. Ela tem soluções muito boas para as questões técnicas em relação à deficiência das imagens, como dividir a tela em quatro. Através dessa montagem múltipla cria-se um elemento visual de impacto na tela do cinema. E foi isso que norteou o trabalho de montagem para Um Homem de Moral. Durante a realização de meu curta sobre Pixinguinha, achei um acervo de fotos do Thomas Farkas da época de São Paulo, nos anos 40. Isto é no período exato das músicas do Paulo. Sempre imaginei o filme tendo a cidade de São Paulo como um elemento presente. Um Homem de Moral traz a minha visão de São Paulo. Sempre andei muito por ela para ir ao cinema. A questão da tela dividida se contrapõe a televisão, já que posso mostrar dois personagens ao mesmo tempo na tela. A montagem é o filme e finalizei com músicos para capturar a sensibilidade musical deles.



Você realizou um curta sobre Pixinguinha, em 2006. E, no momento, diversos documentaristas se debruçam em biografias de músicos, como Vinicius, de Miguel Faria Jr. e Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer. Quais foram as principais referências para Um Homem de Moral?

R.D.: Esse fenômeno de documentários sobre músico é o que chamo de efeito Vinicius. Existe ainda um preconceito por parte do público em assistir documentários no cinema e o filme Vinicius rompeu com essa barreira através do seu êxito de bilheteria. Dessa forma, os cineastas perceberam o filão da MPB. Mas diferente de outras modas cinematográficas, esse fenômeno veio para ficar. Já os filmes voltados para torcedores de clube de futebol [N.R.: Ricardo Dias faz referência aos docs que têm chegado às telas e ao DVD de grandes times do país, como Fiel, de Andréa Pasquini] são apenas uma exploração comercial da marca. Na música é tudo bem mais interessante. Todos perceberam que devemos dar valor às imagens de arquivo e a importância de mantê-las em bom estado de conservação. Já com relação as referências, posso apontar algumas: O Grande Momento, de Roberto Santos, que traz essa visão de cidade e do povo; Rio, Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos; As Canções Brasileiras, projeto de Humberto Mauro, e toda a coleção FUNARTE. Nós temos um universo vasto ainda a ser explorado em música. Por exemplo, o cantor Zé Limeira é conhecido em todo Nordeste por intermédio de lendas e “causos” engraçados, mas ninguém ainda filmou essa história. [N.R.: nesse momento a produtora do filme, Zita Carvalhosa, aparece na conversa e declara que os documentários não envelhecem, ao contrário de diversos filmes ficcionais que ficam datados e presos à sua época. Recupera-se para o público as personalidades e épocas para que as novas gerações também possam usufruir].



A possibilidade de utilização da câmera digital fez com que uma nova geração de documentaristas emergisse no Brasil. Como você analisa o documentário brasileiro nos dias de hoje?

R.D.:O lado técnico é sempre importante. Um colega uma vez falou com razão: como seria a vida dos pintores impressionistas se não tivesse sido inventado o tubo de tinta? Já a Nouvelle Vague foi auxiliada por uma câmera que ia para as ruas com facilidade. E o documentarista Jean Rouch encomendou especialmente uma câmera que revolucionou o gênero. Isso quer dizer que o lado técnico sempre vem antes ou está ao lado de uma guinada artística. Através da tecnologia também se diminuiu o custo de produção cinematográfica. Porque filmar um documentário em película não faz mais sentido nos dias de hoje. E a câmera digital abriu portas para os documentaristas.



Fale um pouco sobre a experiência das aulas de cinema brasileiro com o teórico e crítico Paulo Emilio Salles Gomes na USP, que acabaram rendendo seu doc Paulo Emilio.

R.D.: O professor Paulo Emilio foi um grande encontro na minha vida. Eu tenho enorme respeito por professores; e, anos depois, me tornei um também. Um professor, Aroldo Eliseu de Paiva, no colégio me ensinou a ver filmes de uma maneira diferente. Meu primeiro contato com o Paulo Emilio aconteceu na ECA, em São Paulo, no curso de Cinema Brasileiro 1, em 1977. Depois de um tempo, descobri que as aulas tinham início sempre quando o primeiro aluno chegava. Comecei a chegar antes e recebi aulas exclusivas durante algum tempo. A morte dele foi um impacto para o cinema brasileiro. Fiz um projeto para contar a sua história, pois ele me ensinou, assim como a tantos outros, a amar e se interessar pelo cinema brasileiro, e, sem discriminação, em um caminho que percorria do Humberto Mauro até a Boca do Lixo. Por coincidência do destino dois Paulos Emilios foram importantes na minha vida: o Vanzolini e o Salles Gomes.

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