Críticas


MOSCOU

De: EDUARDO COUTINHO
Com: GRUPO GALPÃO
07.08.2009
Por Daniel Schenker
UMA EXPERIÊNCIA LACUNAR

Em Moscou , Eduardo Coutinho está interessado no inacabado e não no projeto final, algo que remete a uma distinção entre a temporalidade no teatro e no cinema. O teatro é a manifestação artística do presente, que nasce e morre diante do espectador todas as noites, enquanto que o cinema é um produto fechado, vinculado ao passado do momento em que foi registrado. Como em Jogo de Cena , Coutinho volta a fazer um filme em que a sensação de presente atravessa a natureza passada, própria do cinema.



Para tanto, lançou uma provocação aos integrantes do Grupo Galpão: ensaiar durante três semanas As Três Irmãs , uma das principais peças de Tchekhov. Após este prazo, o trabalho, conduzido pelo diretor Enrique Diaz, seria interrompido. Coutinho não sabia onde iria chegar com esta proposta. Mas tinha certeza de que ela seria incompleta, o que também transparece no desapego às convenções teatrais – os atores surgem vestindo roupas de ensaio ou breves sugestões de figurino.



O filme representa uma tomada de posição do artista, que se propõe a caminhar por trilha ainda não desbravada. Mas o cineasta talvez não esteja tão deslocado no processo realizado por Diaz e os atores do Galpão. Ele emoldura o filme, apresentando a peça (uma provocação no repertório do grupo Galpão, normalmente distante do registro realista) e dizendo as palavras finais. Esta moldura, porém, não retém a experiência de assistir a Moscou e nem a dramaturgia de Tchekhov, que, como assinala o próprio Coutinho, “quer o inacabado”. Os personagens de Tchekhov ultrapassam as bordas delimitadoras de início e fim das peças com as suas chegadas e partidas.



No decorrer do curto espaço de tempo de três semanas, a equipe do Galpão é levada por Diaz, através de exercícios, a se apropriar dos personagens do dramaturgo russo. Os exercícios embaralham vida pessoal dos atores e instância ficcional dos personagens, dando ao espectador a almejada sensação de instante imediato. Em determinado momento, os atores lidam com memórias alheias, evidenciando que o ato de lembrar implica numa “ficcionalização”. Afinal, mesmo as próprias vivências não são revividas quando evocadas; surgem, isto sim, modificadas por acréscimos e subtrações. De qualquer maneira, em Moscou , o mais interessante é justamente a lacuna: a passagem dos exercícios para a cena. Após o final da projeção fica a pergunta: será que Coutinho não quis filmar esta passagem ou ela se constitui como um mistério no trabalho do ator, impossível de ser detectado?



# MOSCOU

Brasil, 2009

Direção: EDUARDO COUTINHO

Direção teatral: ENRIQUE DIAZ

Produção executiva: JOÃO MOREIRA SALLES, MAURICIO ANDRADE RAMOS, GUILHERME CEZAR COELHO

Fotografia: JACQUES CHEUICHE, ABC

Edição: JORDANA BERG

Som: VALÉRIA FERRO

Edição de som e mixagem: DENILSON CAMPOS

Elenco: GRUPO GALPÃO

Duração: 78 minutos



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