Críticas


FESTIVAL DO RIO 2009: MOSTRA JEANNE MOREAU

De: VÁRIOS DIRETORES
Com: VÁRIOS INTERPRÉTES
23.09.2009
Por Críticos.com.br
MOSTRA JEANNE MOREAU - Festival do Rio 2009

MAIS TARDE VOCÊ VAI ENTENDER... (PLUS TARD, TU COMPRENDRAS...)



Direção: Amos Gitäi. França/Alemanha, 2008.



Por Luiz Fernando Gallego



(Este texto foi publicado originalmente em 29/09/2008 sob o título A FORÇA DO NÃO-DITO, já que este filme também foi exibido no Festival do Rio ano passado)



Pouco mais de quarenta anos depois do término da II Guerra Mundial, um homem de meia-idade que já construiu seu próprio núcleo familiar (Hippolyte Grirardot) está obsessivamente voltado para a história de sua família de origem: sua mãe, agora bem idosa, é judia; e seu pai (já falecido), não. Como teria ela sobrevivido na França ocupada pelos alemães? Por que ele, nascido logo depois do final da guerra, conheceu seus avós paternos residindo no apartamento que havia sido dos pais de sua mãe, mortos por terem sido delatados depois de terem conseguido esconder-se por dois anos em um pequeno vilarejo do interior?



Após um breve prólogo e mínimos créditos iniciais, Mais tarde você vai entender mostra o interior da residência da Sra. Rivka (Jeanne Moreau). Ela está à vontade em sua casa, cozinhando, com lenço na cabeça e cabelo enrolado. Na TV ligada, o julgamento do “carniceiro” nazista Klaus Barbie (que de fato ocorreu em 1987). Ela abre as janelas, deixando o barulho da rua entrar, talvez para não escutar o que está sendo rememorado pelas testemunhas de acusação: depoimentos sobre a perseguição aos judeus na França.



Como em quase todo o filme, a cena é filmada em um longo plano-seqüência. Praticamente todos as cenas trazem a mesma estrutura de narrativa: a câmera procura os atores, acompanhando-os pelos cômodos, registrando seus diálogos indo de um rosto para o outro, sem o recurso infinitamente mais habitual de campo-e-contracampo.



Assim será na cena seguinte, quando a Sra. Rivka recebe o filho para jantar, agora com o cabelo arrumado, usando casaco, colar de pérolas, relógios em ambos os braços, cheia de jóias e anéis. A cada tentativa de indagação do filho sobre o passado, ela responde com outro assunto, muda a conversa, introduz temas banais - e o que não é dito começa a falar mais alto do que qualquer esclarecimento objetivo.



O talento extraordinário de Jeanne Moreau, em um de seus maiores desempenhos, começa a se impor, sem jamais cair na caricatura da “mãe judia”, mas universalizando a atitude de mães idosas quando não querem falar do passado. Mais adiante, um encontro entre ela e sua nora (Emanuelle Devos) trará outro breve diálogo cheio de elipses: uma sugere um assunto distantemente alusivo ao ponto onde quer chegar, a sogra desconversa perguntando sobre o chá, a nora recua aceitando o novo “assunto”... enfim, falam como quem dança um minueto, em um duo de interpretações femininas digno de antologia.



É uma pena que o diretor Amos Gitaï tenha “encenado” uma cena imaginada pelo personagem masculino central que mostra exatamente, e imediatamente em seguida, aquilo que lhe foi relatado por um homem (que na época era um menino) quando da prisão de seus avós maternos pelos nazistas. Esta cena - uma espécie de flashback imaginário e, para aumentar a tensão, abusando da “câmera na mão” que pode incomodar visualmente alguns espectadores - embora não seja ruim em si mesma, quebra por alguns minutos com o que é dominante (e mais forte) no filme, ou seja, o discurso paradoxal que fala de um passado trágico através do não-dito, dos silêncios e segredos de família. O indizível? O que não pode ser dito?



Mesmo assim, o filme preserva a força emocional de todo o restante, seja nos diálogos evasivos, seja no estilo da narrativa cinematográfica com os já mencionados planos-seqüência - nos quais a câmera parece buscar o que encontrar, quase sempre em vão.



Curiosamente, para certas perguntas de seus filhos sobre o mesmo tema com o qual ele está obcecado, o pai desconversa e responde vagamente. Porque ainda não sabe? Ou não que falar do que suspeita? Ele critica o silêncio de sua mãe, mas parece repetir a mesma postura com seus próprios filhos...



Vale a pena ainda prestar a atenção no melancólico tema musical, na câmera de uma das últimas cenas que “sai" por uma janela, mostrando a tão bela quanto “indiferente” paisagem parisiense para logo após retornar a corredores escuros; e - não é demais repetir – na interpretação de Jeanne Moreau que culmina em uma cena passada dentro de uma sinagoga.

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