Críticas


AVATAR

De: JAMES CAMERON
Com: SAM WORTHINGTON, ZOE SALDANA, SIGOURNEY WEAVER
19.12.2009
Por Marcelo Janot
SÓ PARA CRIANÇAS

Depois de mais de uma década de mistério e expectativa criados em torno de “Avatar”, é uma decepção constatar que o novo projeto de James “Titanic” Cameron não passa de um caríssimo filme infantil - não como os da Pixar, tipo “Wall-E”, que agradam tanto ou mais aos adultos. “Avatar” parece feito para crianças menores de 10 anos de idade. Bom para elas. Ruim para quem tenha o intelecto um pouquinho mais desenvolvido.



Tudo o que se refere à trama do filme é banal e elementar. As nobres mensagens ecológicas e antibelicistas estão lá mastigadinhas para que não restem dúvidas de que a história, que se passa num futuro próximo, deve ser remetida ao presente e ao passado dos confrontos colonizador opressor X nativo oprimido, capítulos tristes na história das nossas civilizações. Para facilitar ainda mais a tarefa, muitos personagens se comportam como caricaturas exageradas, que beiram o ridículo. É o caso do capitalista yuppie inescrupuloso interpretado por Giovanni Ribisi e do coronel vivido por Stephen Lang. Caricaturas podem render grandes personagens e atuações magistrais (caso do coronel nazista de Christoph Waltz em “Bastardos Inglórios”), desde que se assumam como tal. No caso de “Avatar”, James Cameron pretende que eles sejam levados a sério, aí fica difícil de engolir.



Também não dá pra entender porque o personagem-chave do filme é um ex-fuzileiro naval paraplégico. Se a intenção foi a de acentuar o contraste entre o Jake real, inválido fisicamente, e o seu avatar, capaz de correr, lutar, enfim, “renascer para a vida”, é uma opção que abre brechas para interpretações perigosamente discriminatórias. Da mesma forma, podemos imaginar que ele topou a aventura apenas para conseguir dinheiro para a cirurgia que lhe traria de volta os movimentos das pernas, possibilitando que levasse uma vida “normal”. Cameron também pode ter feito de Jake um paraplégico só para mostrar que conseqüências a guerra pode trazer – em um filme com soluções tão infantilmente simplórias, isso até que é possível.



De resto, o roteiro se limita a reciclar fórmulas e clichês – uma pitada de “Matrix” aqui, outra de “O Exterminador do Futuro” ali, épicos românticos de aventura, sem contar a presença de mais uma chatíssima balada composta por James Horner para alguma sub-Celine Dion se esgoelar nos créditos finais. Por sorte, há um diretor de verdade por detrás das câmeras, e por isso, apesar de todos os problemas de roteiro, Cameron consegue fazer um filme que não chega a entendiar quem já passou dos 10.



A boa direção se alia ao espetáculo visual apuradíssimo e revolucionário em termos tecnológicos. Personagens criados em computador nunca foram tão reais. O mundo de Pandora é deslumbrante em seus matizes derivados da cor púrpura. Pena que Cameron não explore todas as suas possibilidades. Os rituais xamânicos da tribo dos Na´vi, por exemplo, poderiam render imagens tão visualmente avassaladoras como as das coreografias de Busby Berkeley para os musicais da Metro, ainda mais em 3D. E por falar em 3D, o recurso é muito pouco explorado após o início promissor, em que a cena de Jake despertando na nave espacial nos faz imaginar Kubrick filmando “2001” em três dimensões.



Enfim, se as crianças se deslumbrarem com o universo de “Avatar” e tiverem, desde já, sua consciência ecológica despertada, além de passarem a acreditar que a ganância dará lugar à fraternidade entre os povos, a obstinação de Cameron terá valido a pena.

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