Críticas


LULA, O FILHO DO BRASIL

De: FÁBIO BARRETO
Com: RUI RICARDO DIAZ, GLORIA PIRES, CLEO PIRES, JULIANA BARONI
02.01.2010
Por Daniel Schenker
UM CINEMA QUE NÃO CORRE RISCOS

Texto publicado originalmente por ocasião do Festival de Brasília (nov/2009)



Lula, o Filho do Brasil é um filme abertamente favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Procede, portanto, a principal restrição feita a essa nova produção de Fábio Barreto, exibida na abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: a de que Lula é quase canonizado na tela, como se não fosse uma pessoa de carne e osso.



Não significa, porém, que o diretor não apresente um trabalho digno, sob o ponto de vista cinematográfico, distante dos equívocos de projetos anteriores, como Bela Donna , A Paixão de Jacobina e Nossa Senhora de Caravaggio . Fábio Barreto sustenta o ritmo durante boa parte dos 128 minutos de duração e se apóia acertadamente no trabalho dos atores principais – Gloria Pires e Rui Ricardo Diaz –, satisfatórios (especialmente, ele), apesar de sobrecarregarem um pouco na composição (sotaque).



Escorado no livro homônimo de Denise Paraná, Fábio Barreto organiza um passo a passo linear e cronológico da trajetória de Lula, desde a infância no sertão, passando pela vinda para São Paulo, na década de 50, pelo contato com a greve violenta de São Bernardo do Campo, em 1963, o acidente de trabalho que ocasionou a perda do dedo, o sofrimento diante da morte da primeira mulher e do filho recém-nascido e o comprometimento contudente com a vida política.



A recriação ficcional é mesclada a imagens de arquivo referentes a momentos emergenciais, como o Golpe de 64 e a implantação do AI-5. Numa época em que as fronteiras do documental e da ficção vêm sendo cada vez mais borradas, Fábio Barreto ainda se mostra atado a uma divisão um tanto convencional num filme que também destaca o contraste entre o clima de euforia e as torturas praticadas nos porões do Doi-Codi durante a Copa de 70.



A falta de inventividade torna-se evidente na eleição de frases simbólicas, repetidas no decorrer do filme (“Levanta essa cabeça e teima. Porque é só teimar”) e em recursos melodramáticas (o longo definhar de dona Lindu, mãe de Lula, proferindo palavras proféticas), mesmo que uma das principais qualidades do filme seja, inegavelmente, o esforço em não ceder a golpes de grandiloquência,



Em Lula, o Filho do Brasil , a história de Luiz Inácio Lula da Silva termina no momento em que assume a liderança do movimento sindical nas greves do ABC paulista em 1979/80, contexto que influenciou, decisivamente, Leon Hirszman na transposição cinematográfica da peça Eles não usam black-tie , de Gianfrancesco Guarnieri. Os letreiros finais fazem menção à chegada de Lula à presidência do Brasil, em 2003. Muitos, claro, vão questionar a opção por esse hiato de mais de 20 anos.



# LULA, O FILHO DO BRASIL

Brasil, 2009

Direção: FÁBIO BARRETO

Produção: LC BARRETO, FILMES DO EQUADOR, INTERVÍDEO DIGITAL

Roteiro: DANIEL TENDLER, DENISE PARANÁ, FERNANDO BONASSI

Fotografia: GUSTAVO HADBA

Direção de Arte: CLÓVIS BUENO

Figurinos: CRISTINA CAMARGO

Montagem: LETÍCIA GIFFONI

Elenco: RUI RICARDO DIAZ, GLORIA PIRES, CLEO PIRES, JULIANA BARONI

Duração: 128 minutos

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