Críticas


MENTE QUE MENTE, A

De: SEAN McGINLY
Com: JOHN MALKOVICH, COLIN HANKS, EMILY BLUNT, TOM HANKS, COLIN HANKS
17.01.2010
Por Nelson Hoineff
O GRANDE BUCK HOWARD

O "Grande Buck Howard" é um showman e um ilusionista. Mas sua grande credencial não é essa. É ter aparecido 61 vezes no Tonight Show. - "Tonight Show With Johnny Carson" - insiste ele: “Não esses caras que vieram depois”.



O filme foi realizado em 2008, mas para entender o que isso representa seria bom estar familiarizado com o que está acontecendo neste momento no Tonight Show. Uma epopéia de conflitos e mudanças protagonizadas por Jay Leno (que deixou o programa no final do ano passado) e Conan O’Brien (que teoricamente entraria no seu lugar). A NBC quer dar um novo show para Leno, mas para isso tem que atrasar O’Brien em meia hora. Ele não aceita – e o desenrolar da história é mais importante para a América do que todas as crises do Oriente Médio.



Leno e O’Brien estão no filme, protagonizando a si próprios. Lá também está Jon Stewart, outro dos maiores ícones do talk show americano. É assim que somos apresentados ao "Grande Buck Howard". Como o homem que esteve 61 vezes no Tonight Show With Johnny Carson.



Parte dessa formidável história está em Late Shift, escrito por Bill Carter e dirigido por Betty Thomas em 1996. O filme narra os bastidores da luta entre Leno e David Letterman pelo controle do show, após a aposentadoria de Johnny Carson. Leno ganhou a batalha – travada entre os superagentes Helen Kushnick e Mike Ovitz - e Letterman transferiu-se para a CBS, onde passou a fazer o Late Show. As táticas para a marcação dos participantes estão descritas no filme – feito para a HBO – e ajudam a compreensão não apenas dos bastidores dos grandes talk shows, mas do que eles representam para a cultura americana. Pelo Tonight Show passaram nomes como Jack Paar ou Don Lane, sem falar no primeiro de todos, Steve Allen, que no início dos anos 1950 mudou a face da televisão, do entretenimento e – se me permitem os possíveis excessos – da cultura ocidental.



O Rei da Comédia, que Scorsese dirigiu em 1982 com DeNiro e Jerry Lewis, foi inspirado no Tonight Show With Johnny Carson, e é um belo exemplo do caminho inverso, do impacto do show sobre os seus participantes. Scorsese não estava sendo leviano – e a densidade deste pano de fundo é igualmente entendida em A Mente que Mente.



Quando chegamos a conhecê-lo, Howard já não é mais convidado para o Tonight Show With Johnny Carson. Agora faz shows por pequenas cidades americanas – e parece amar o que faz, apesar da sua audiência não passar de metade das salas. Alguns chamariam isso de "decadência". Outros, de "mudança".



Mas o truque do filme é que Howard tem um truque. Durante os shows, o ilusionista pede que seu cachê seja escondido por um dos membros da platéia para que ele o encontre no final. Howard sempre o encontra e ninguém, nem mesmo Troy, o seu produtor executivo (Colin Hanks), sabe como.



O "Grande Buck Howard" é visto no filme pela ótica de Troy, cujo pai queria que ele estudasse direito e não consegue imaginar para o filho nada menos adequado que o show-business (o pai é protagonizado por Tom Hanks, que incidentalmente é o pai de Colin na chamada vida real).



Além do seu truque reservado para o grand finale, Howard guarda outros segredos. Ele efetivamente coloca sua platéia para dormir num estalar de dedos. Ninguém sabe absolutamente nada sobre sua intimidade. Ele não tem família. Não tem amigos, não tem passado fora dos palcos. As pessoas tentam em vão descobrir algo sobre sua sexualidade. Sua relação afetiva com todos que o rodeiam é enigmática. Enigmática, não: complexa. Na sua conturbada relação com o jovem Troy, julguei ver nos olhos de John Malkovich algo mais do que uma relação profissional.



A complexidade de seu personagem é monstruosa e encantadora. Num patamar, Howard vive das lembranças do tempo em que aparecia a toda hora no Tonight Show With Johnny Carson. Noutro, é um incansável construtor de situações. Se John Malkovich expressa isso, é difícil dizer. John pode ser um dos maiores atores do mundo - mas por vezes fiquei com a sensação de que as nuances do personagem fossem maiores ainda.



O personagem de Howard é baseado em George Joseph Kresge, The Amazing Kreskin, que acaba de completar 75 anos. Kreskin apareceu de fato 56 vezes no Tonight Show, entre 1970 e 1980. No dia do seu 75º aniversário, 12 de janeiro deste ano, foi saudado com entusiasmo por David Letterman no Late Show, onde esteve algumas vezes nos anos 90. Letterman, de passagem, acusou a série O Mentalista de plagiá-lo e o aconselhou a processar os produtores do programa.



No filme, Howard é bem mais misterioso do que Kreskin – e é extraordinário que a história surfe sobre esse mistério sem tentar explicá-lo. Isso não se faz sem uma dose brutal de humildade e cumplicidade. Sean McGinley mergulha na mente de seu personagem sem ter a pretensão de tirar daí um quadro para o Fantástico.



Howard não é nostálgico, muito menos amargurado e menos ainda o que alguns chamariam de “perseverante”. É um ilusionista que guarda alguns segredos para sua platéia e para o mundo que gira ao seu redor. Sua profundidade não é exatamente a de um astro do BBB. É notável que ele possa ser tão respeitado por um filme. A grandeza de A Mente que Mente está justamente em saber do que está falando - e ao mesmo tempo não se meter onde não é chamado.



#MENTE QUE MENTE, A (The Great Buck Howard)

EUA, 2008

Direção e Roteiro:Sean McGinly

Fotografia: Tak Fujimoto

Edição: Myron Kerstein

Direção de Arte: Tristan P. Bourne

Música: Blake Neely

Elenco: John Malkovich , Colin Hanks , Emily Blunt , Ricky Jay , Steve Zahn, Tom Hanks, Colin Hanks.

Duração: 90 minutos

Site oficial:http://greatbuckhowardmovie.com/

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário