Críticas


INSOLAÇÃO

De: FELIPE HIRSCH, DANIELA THOMAS
Com: PAULO JOSÉ, LEONARDO MEDEIROS, MARIA LUIZA MENDONÇA, LEANDRA LEAL, SIMONE SPOLADORE
29.03.2010
Por Daniel Schenker
TCHEKHOV DESEMBARCA EM BRASÍLIA

Portadores de sólida carreira teatral, Felipe Hirsch e Daniela Thomas buscaram, na concepção de Insolação , matéria-prima em contos e peças russas. A dramaturgia de Anton Tchekhov ganhou lugar de destaque – e não só porque um dos personagens escreve repetidas vezes o nome de Liuba, a matriarca aristocrática de O Jardim das Cerejeiras , mas, em especial, pelo fato de todos estarem sintonizados em frequências diversas. Em muitos momentos, dialogam como se estivessem monologando.



“Me dá o futuro”, pede uma desnorteada Leandra Leal. O desejo, obviamente inviável, pode remeter ao modo como Tchekhov trabalha com o tempo. As trajetórias de seus personagens transcendem as demarcações de início e fim dos textos. Quando as peças começam, os personagens estão chegando de algum lugar e antes de terminar anunciam partidas para destinos variados. Tchekhov registra fragmentos e não panorâmicas de vida.



Cabe traçar outras conexões entre Insolação e a obra de Tchekhov, de acordo com o roteiro de Will Eno (autor de Temporada de Gripe e Thom Payne/Lady Grey , ambos encenados por Hirsch) e Sam Lipsyte. Ocasionalmente, alguns personagens parecem não conseguir sair de Brasília (seria uma questão semelhante ao das protagonistas de As Três Irmãs , que, porém, desejam trilhar percurso inverso, da província onde moram rumo a uma sonhada Moscou?).



A febre interior que domina as personagens de Insolação , como uma força que não extravasa, evoca as existências abortadas das protagonistas de As Três Irmãs . A repressão norteou, durante muitos anos, outra figura célebre do teatro de Tchekhov, Tio Vanya , que, porém, já nos primeiros momentos, evidencia a extensão de sua revolta. Figuras como Trofímov, o estudante acomodado de O Jardim das Cerejeiras , e Treplev, o aspirante a dramaturgo mergulhado numa relação passional com a mãe, a diva Arkadina, em A Gaivota , também marcam tomadas de posição algo contundentes.



E há um conhecido contraste entre interior pulsante e exterior inativo, questão que parece ter se tornado um lugar-comum em se tratando de Tchekhov, que vem à tona durante a projeção. Entretanto, Tchekhov registra um hiato entre uma fase que já passou, mesmo que a maioria não perceba com clareza, e outro que ainda não chegou, mas cujos primeiros acordes são ouvidos ao fundo (o conflito entre Arkádina e Treplev evidencia isto com bastante precisão). O presente não se sobrepõe ao passado, como as imagens apagadas, mas visíveis, no quadro negro, principal elemento cenográfico da montagem de Thom Payne/Lady Grey .



A intensidade das pulsões de vida e de morte dos personagens de Insolação contrasta, em certa medida, com o formalismo do tratamento estético. De acordo com o esperado, a excelência técnica impera no registro de personagens (de faixas etárias variadas) que transitam por espaços abertos de uma Brasília desolada e portadora de uma arquitetura monumental que desponta ao longe. Impossível não reparar na preocupação dos realizadores com a fotografia (de Mauro Pinheiro Jr.) e na cuidadosa escolha das cores para os figurinos (de Cássio Brasil). No elenco, Daniela Piepszyk é presença sempre expressiva.



# INSOLAÇÃO

Brasil, 2009

Direção: FELIPE HIRSCH, DANIELA THOMAS

Roteiro: WILL ENO, SAM LIPSYTE

Produção: SARA SILVEIRA, BETO AMARAL, PEDRO IGOR ALCANTARA, MARIA IONESCU

Fotografia: MAURO PINHEIRO JR.

Trilha Sonora: ARTHUR DE FARIA

Direção de Arte: VALDY LOPES JN

Figurino: CÁSSIO BRASIL

Elenco: PAULO JOSÉ, LEONARDO MEDEIROS, MARIA LUIZA MENDONÇA, LEANDRA LEAL, SIMONE SPOLADORE

Duração: 109 minutos



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