Críticas


MUNDO IMAGINÁRIO DO DOUTOR PARNASSUS, O

De: TERRY GILLIAM
Com: HEATH LEDGER, CHRISTOPHER PLUMMER, TOM WAITS, JOHNNY DEPP, JUDE LAW
05.05.2010
Por Leonardo Luiz Ferreira
ELEGIA FABULAR

O diretor Terry Gilliam ficou marcado por uma trajetória irregular em projetos que não se concretizaram ou que nem mesmo chegaram às telas; e por recusar a embarcar em longas nos quais não tivesse o controle criativo completo, entre eles Forrest Gump (1994) e Alien: Ressureição (1997). O caso mais notório é o de The Man Who Killed Don Quixote (2001), que teve as suas filmagens iniciadas, mas prontamente interrompidas devido a condição debilitada do ator Jean Rochefort, que interpretaria o personagem principal. Atualmente, o cineasta remodelou o projeto e deve finalizá-lo em 2011. Por outro lado, ele sempre teve que lutar muito com produtores e estúdios para manter a sua visão cinematográfica intacta em cada obra de sua filmografia: Brazil, o filme (1985) quase nem estreou devido aos inúmeros cortes exigidos e só se tornou cult porque tanto o público quanto crítica endossaram a originalidade estética e inventiva de Gilliam. E O Mundo Imaginário de Doutor Parnassus (2009) parecia se encaminhar para o limbo após a surpreendente notícia da morte do jovem Heath Ledger, que ainda não tinha finalizado a sua participação no filme. Porém, a reestruturação foi possível, e o longa se transforma em mais uma decepção numa carreira auspiciosa nos ´80 e ´90.



Independente das mudanças efetuadas no roteiro, o maior problema de O Mundo Imaginário de Doutor Parnassus reside exatamente em seu argumento, ou seja, no seu momento de origem: parte-se do confronto eterno entre o bem e o mal para traçar a história de um personagem multifacetado, Parnassus, que nunca consegue ser bem delineada em cena. É como se existisse todo um planejamento em torno da composição de uma figura folclórica, mas que não transcende o mero viés de um homem decadente com habilidades especiais em um mundo urbano e que não permite espaço para dar asas à imaginação. Toda uma possível história pregressa e a elaboração do storytelling são transformadas em um arremedo de informações com o intuito meramente ilustrativo para fazer funcionar a narração-base da trama.



A encenação de Gilliam é problemática e soa constantemente desconjuntada e inapropriada em diversas sequências. A abertura e toda a primeira meia hora parecem o esboço de um projeto ainda inacabado: os planos são abruptos e com problemas evidentes de ritmo. O primeiro conflito entre bêbados e a trupe circense chega a ser constrangedor em termos de estabelecer os elementos centrais da história: através da passagem por um espelho, os sonhos ou pesadelos da pessoa se tornam reais. Nesse momento, a estética lúdica e onírica de Gilliam, uma das principais marcas de seu trabalho, entram em cena para criarem um universo particular, mas que esbarra em caricaturas, verba reduzida e muito pouca invenção.



A cada inserção, fruto da imaginação do indivíduo em questão, o diretor opta por elementos concretos para caracterizá-lo, e não por uma abstração impressionista. É extremamente limitado reduzir a aparência física e a classe social com sapatos gigantes, dourados e o desejo de possuir tudo.



O dualismo e a ambigüidade inexistem tanto no roteiro quanto na direção de Terry: Parnassus é um personagem caricato e o demônio, uma monocórdia expressão irônica da persona de Tom Waits. E a palidez das cores aliada a direção de arte exagerada só ressaltam essa atmosfera de subproduto na carreira de Gilliam.



A todo instante, a sensação que se forma em O Mundo Imaginário de Doutor Parnassus é de que o fluxo narrativo irá enveredar por um outro caminho em constantes quebras e descontinuidade na ação, e que não conseguem tomar consistência. É claro que Terry nunca prezou pelo classicismo narrativo e que até mesmo realizou longas baseados em esquetes, como em sua longeva parceria com o Monty Phyton. Só que o interesse nesse projeto em particular está em construir um universo autônomo para o espectador por intermédio de um único fio condutor que desembocará, como sempre, em uma moral da fábula. As amarras estéticas soam tão inconsistentes que tornam ineficazes todo e qualquer esforço para concluir o longa. Dessa vez, a fábula de Gilliam termina no índice.



# O MUNDO IMAGINÁRIO DO DOUTOR PARNASSUS (The Imaginarium World of Doctor Parnassus)

Canadá, França, Inglaterra, 2009.

Direção: TERRY GILLIAM

Roteiro: CHARLES McKEOWN e TERRY GILLIAM

Fotografia: NICOLA PECORINI

Edição: MICK AUDSLEY

Música: JEFF DANNA e MYCHAEL DANNA

Produção: AMY GILLIAM, TERRY GILLIAM, SAMUEL HADIDA e WILLIAM VINCE

Elenco: HEATH LEDGER, CHRISTOPHER PLUMMER, TOM WAITS, JOHNNY DEPP, JUDE LAW

Duração: 123 minutos

Site oficial: http://www.needcoffee.com/doctor-parnassus/



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