Críticas


APROXIMAÇÃO

De: AMOS GITAI
Com: JULIETTE BINOCHE, LIRON LEVO, JEANNE MOREAU, HIAM ABBAS
18.05.2010
Por Leonardo Luiz Ferreira
ENTRE DOIS PLANOS

O que era uma filmografia de interesse até meados dos anos 2000 se transformou em uma obra que anda em círculos tanto de forma quanto de conteúdo. Não há como negar a autoria do israelense Amos Gitai desde seus primeiros documentários nos anos 70, que foram censurados em Israel, até a incursão na ficção, em 1985, com o pasoliniano Esther. A sua visão de mundo combativa e provocadora com relação à política e aos conflitos étnicos em seu país lançou um novo olhar interpretativo para questões decisivas da contemporaneidade. Mas seus filmes se tornaram tão repetitivos que é possível codificá-los em pouco tempo, sem realmente trazer algo diferenciado. É como se ele refilmasse à exaustão o mesmo argumento, apenas reprocessando diálogos e situações. Por mais que sua obra esteja fixada em trilogias, os longas deveriam funcionar como complemento e não a diluição dos anteriores.



Gitai agora investe mais em experimentos e tem mantido uma média impressionante de lançamentos. Só que a quantidade está longe de trazer qualidade. Por essa razão, os seus últimos filmes não têm tido grande repercussão nos festivais ou nem chegam a serem exibidos em mostras representativas: Carmel (2009) é um arremedo de ensaio poético, à la Godard, que transita entre a ficção e o documentário, com a repetição do discurso de outrora. Não que a reiteração temática seja prejudicial aos cineastas, mas no caso de Amos se tornou uma espécie de aprisionamento que engessou a sua visão cinematográfica. E isso era algo que não se poderia prever após Alila (2003), já que nessa produção ele abdicava do tom de denúncia e do peso da dramaturgia para um filme mais leve e que apontava novas direções. Só que a partir desse ponto, ele iniciou uma descendente e se transformou em uma caricatura do autor moderno: repetitivo, pedante e estagnado em termos de criação.



Aproximação (2007), que somente agora chega ao circuito nacional, é mais um exemplar dessa fase atual e irregular do realizador. A produção abriga em sua primeira parte todos os procedimentos fílmicos que tornaram pesarosos o ato de assistir a uma obra assinada por Amos Gitai: o primeiro plano tenta traduzir em palavras o discurso do filme, com diversas piscadelas para o espectador, como a troca de línguas dos personagens. Em 10 minutos, Gitai reitera a babel dos tempos atuais em que todos têm identidades difusas e parecem não encontrarem um porto. Isso ilustrado em uma viagem de trem, ou seja, a transitoriedade e deslocamento espaço-tempo. Em seguida, o diretor estabelece tempos mortos que não induzem à reflexão, bem como os planos-sequências, uma das marcas de sua mise-en-scène, em que não se extrai muito nem do espaço nem dos personagens. Em alguns momentos soa apenas como estilo e não como funcionalidade. Uma moça canta de maneira lírica próxima a um morto – a poesia para a tragédia que é intrusiva e não instintiva. Até a atriz Juliette Binoche consegue ser desperdiçada nesse entrecho em que parece não ter função, senão a de estabelecer uma atmosfera e introduzir conflitos.



Já na segunda parte, Aproximação se configura como um filme de busca: de uma mãe por sua filha e de uma razão para compreender o inefável dos confrontos bélicos e religiosos. É nesse terreno espinhoso que Gitai consegue traduzir em imagens o estado de caos da Faixa de Gaza: o plano-sequência da retirada de religiosos recebe uma significância real em meio ao caos do exército se espremendo entre corpos. A câmera documenta e, ao mesmo tempo, reflete a condição de exílio de seus personagens. A partir desse entrecho, o realizador constrói as suas tomadas mais relevantes nos últimos sete anos. E Binoche é responsável por dois instantes de entrega artística quando reencontra em silêncio a filha do passado e torna marcante o gesto de abraçar em um registro repleto de sentimento. Em outro plano, agora o final, as sensações se invertem e o choro do descontrole passa a ser a única forma para lidar com a perda. O mundo se revela inteiro ali, entre esses dois planos.



# APROXIMAÇÃO (Disengagement)

Alemanha, França, Israel, Itália, 2007.

Direção: AMOS GITAI

Roteiro: AMOS GITAI E MARIE-JOSÉ SANSELME

Montagem: ISABELLE INGOLD

Fotografia: CHRISTIAN BERGER

Produção: AMOS GITAI E LAURENT TRUCHOT

Trilha Sonora: SIMON STOCKHAUSEN

Elenco: JULIETTE BINOCHE, LIRON LEVO, JEANNE MOREAU, HIAM ABBAS E TOMER RUSSO

Duração: 115 minutos

Site Oficial: http://www.amosgitai.com/html/film.asp?docid=78&lang=1



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