Críticas


PECADOS DO MEU PAI

De: NICOLAS ENTEL
19.05.2010
Por Leonardo Luiz Ferreira
MATERIAL BRUTO

Diferente de muitos documentaristas, o cineasta argentino Nicolas Entel dispunha de grande material a respeito de seu personagem, o narcotraficante colombiano Pablo Escobar. Bastava ele iniciar uma busca por imagens de arquivo das televisões do mundo todo que documentaram a ascensão e queda do traficante. E foi exatamente essa escolha que empreendeu em um projeto que demorou cerca de 5 anos para ser concluído. A principal razão para dar sentido a tantas imagens foi a de propor um argumento específico: ter como fio condutor da história a interpretação do filho de Escobar para os fatos. Mas não só buscar-se ouvir um lado, porém contrapô-lo com os filhos dos que sofreram com a perda do pai em um conflito que não os pertencia. Mesmo com toda essa chancela e um projeto bem estruturado, é exatamente Entel, com sua limitação como realizador, que faz de Pecados do meu Pai um documentário com resultado bem abaixo do que o seu material sugere.



A primeira e incompreensível escolha equivocada já começa nos primeiros planos em que Nicolas apresenta a sua narrativa com uma animação, em tom de deboche, que remonta o caminho percorrido pela droga até chegar à cidade. É difícil entender essa opção, pois o que virá a seguir não se relaciona de nenhuma forma com esse espírito. E no decorrer da projeção, as escolhas estéticas de Entel indicam que ele não sabia mesmo como conduzir o projeto: a narração em off é solene e contrasta inteiramente com o que é documentado; os próprios depoimentos ao lado das imagens de arquivo surtem o efeito esperado; a trilha sonora, que tem como base o trabalho de Manu Chao, busca conduzir o espectador a se aproximar da história, mas sempre aponta emocionalmente na direção oposta. Falta ao diretor a maturidade de saber ouvir o que o personagem lhe diz, sem buscar alguma interferência externa.



O filho de Escobar, que agora atende pelo nome de Sebastián Marroquín, se abre inteiramente diante da câmera em um processo longo de filmagem, no qual, acertadamente se soube esperar uma progressão de intimidade para que as revelações pudessem surgir. Ele apresenta a sua visão afetiva do traficante e humaniza seu pai, entretanto, reflete sobre as suas ações terroristas e ligações com as drogas. O documentário eticamente escuta o outro lado, pois senão cairia na esparrela de mitificar a figura. Então, Pecados do meu Pai opta não pela dialética em um choque sensacionalista de opiniões, mas para um pensamento complementar que formate um discurso para revelar a persona de Escobar. O principal exemplo nesse sentido está na sequência em que o filho dele ouve o áudio de uma narração de Pablo para a história de “Os Três Porquinhos” e replica para si mesmo e não para a câmera: como esse homem poderia praticar atos criminosos?



Nicolas Entel não consegue manter o plano fixo ao registrar os depoimentos, o que seria uma saída muito mais contundente. Preocupado em fugir da estética televisiva - o que acaba se concretizando em uma narração em off de tamanha pobreza – e demonstrar um estilo, ele imprime diversos cortes durante as falas para buscar desnecessariamente novos ângulos, e não logra êxito em nenhuma das escolhas. O máximo que se aproxima de um movimento bem-sucedido é se manter afastado e sem interferir no encontro entre o filho de Escobar com os rebentos de Galán e Bonilla, políticos que foram assassinados pelo narcotraficante.



# PECADOS DO MEU PAI (Pecados de mi Padre)

Argentina, Colômbia, 2010.

Direção: NICOLAS ENTEL

Roteiro: NICOLAS ENTEL E PABLO FARINA

Produção: IVAN ENTEL E NICOLAS ENTEL

Fotografia: MARIANO MONTI E PATRICIO SUAREZ

Montagem: PABLO FARINA

Trilha Sonora: DIDI GUTMAN E DAVID MAJZLIN

Duração: 90 minutos

Site Oficial: http://www.pecadosdemipadre.tv/







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