Críticas


ORIGEM, A

De: CHRISTOPHER NOLAN
Com: LEONARDO DI CAPRIO, MARILLON COTILLARD, ELLEN PAGE
06.08.2010
Por Marcelo Janot
O GRANDE TRUQUE DO ILUSIONISTA NOLAN

Dizem que certos filmes são feitos para serem vistos mais de uma vez, sob a argumentação de que só na segunda chance o espectador conseguirá captar todas as nuances escondidas nos pequenos detalhes. De fato, há filmes que ganham nova dimensão ao serem revistos. Há aqueles que, quando assistimos pela vigésima vez, ainda assim nos permitem novas leituras. Kubrick e David Lynch são dois exemplos de autores cuja obra nunca perde o fôlego, e nos deixam com a sensação de estarmos diante de filmes inéditos. Seus filmes não são auto-explicativos, e isso explica porque viram objeto de culto – é o espectador quem deve fazer sua própria leitura do que acabou de ver.



Christopher Nolan não é Kubrick nem Lynch. Está tão longe de ser chamado de gênio quanto de ser considerado um picareta. É um competente diretor da nova geração, que mostrou a que veio em 2000, quando fez Amnésia (Memento). O roteiro era meticulosamente elaborado, com a história transcorrendo de trás pra frente em virtude do déficit de memória do protagonista, e no DVD o espectador tinha a opção de assisti-lo também na ordem cronológica, o que facilitava o encaixe do quebra-cabeças cinematográfico de Nolan. Ou seja, é como se ele tivesse propositalmente feito um filme para ser visto... duas vezes.



Nolan também marcou pontos quando trouxe novos ares para a franquia de filmes do Batman, em especial Batman Begins, em que a ação e a reflexão se equilibravam gerando um todo coeso, denso e envolvente, enquanto que no supervalorizado O Cavaleiro das Trevas era exclusivamente o trabalho de Heath Ledger como vilão que tirava o filme do lugar comum da aventura hollywoodiana.



Agora, aos recém-completados 40 anos, o diretor se tornou um todo poderoso na meca do cinema, capaz de movimentar um orçamento de US$ 160 milhões, com Leonardo DiCaprio à frente do elenco, em seu novo projeto como diretor-roteirista, A Origem. Com o filme, Nolan mostra que tirou uma lição de sua obra mais fraca, O Grande Truque: passou a merecer ele mesmo o título de ilusionista. Um ilusionista tão impecável que conseguiu, ao mesmo tempo, ser chamado de gênio por parte da crítica e imprensa especializada e ainda levar cerca de 140 mil leitores do site imdb.com a colocarem o filme com a terceira nota mais alta de todos os tempos.



Como ele conseguiu iludir tanta gente com um filme que não passa de reciclagem da idéia de Matrix, misturado com a adrenalina das aventuras de James Bond, é um fenômeno que merece ser estudado. Afinal, o que há de novo em A Origem? Absolutamente nada. O que ele revitaliza, o que ele inventa? Absolutamente nada. Que tipo de discussão nova ele suscita, seja no campo filosófico ou psicológico? Absolutamente nenhuma. Nem dentro da própria obra de Nolan o filme acrescenta algo de significativo, visto que o (anti-)herói atormentado de DiCaprio é mera variação dos protagonistas de seus filmes anteriores.



Neo, o predestinado de Matrix, tem a opção de escolher entre a pílula vermelha e a azul para decidir se embarca naquela viagem alucinógena pelo mundo virtual ou se fica com sua vidinha ordinária de funcionário de escritório e hacker nas horas vagas. Em um dado momento de A Origem, a estudante de arquitetura vivida por Ellen Page, escolhida (predestinada?) por sua velocidade de raciocínio acima da média, é apresentada à realidade paralela. Ao voltar, ela não parece disposta a repetir a experiência. Até que um dos personagens diz que sim, ela voltará, motivada pela natureza viciante que a possibilidade de se transportar para uma outra realidade oferece.



O exemplo acima é apenas uma das inúmeras semelhanças que A Origem guarda com Matrix. Assim como no filme dos irmãos Wachowski, ele tem como prólogo uma cena de ação incessante, sem deixar muito claro para o espectador em que realidade aquilo está acontecendo. Só que, ao contrário de Matrix, a ação não pára. Se A Origem também começa seguindo a cartilha dos filmes de James Bond, é no rumo dos recentes 007 que ele finca sua base: muita adrenalina em cenários geográficos distintos. O roteiro logo vai deixar muito claro e mastigado para o espectador a sua viagem pelas diferentes dimensões do sonho. O importante é que ninguém se perca, porque o universo onírico, aqui, não tem nada ver com David Lynch ou Buñuel: ele é apenas o pretexto e a justificativa para os milhões de dólares torrados em deslumbrantes cenários e efeitos especiais. Mas a ação nunca chega a ser claustrofóbica como o tema pede. O dilema familiar do protagonista resvala o tempo todo no psicologismo barato da história do viúvo que ao invés de enfrentar o trauma tenta ressuscitar a mulher, e ainda derrapa feio no sentimentalismo piegas em seu desfecho.



O universo dos sonhos não merece ser tão arrumadinho, careta, consciente e auto-explicável. Christopher Nolan mostra porque entregou o segredo de Amnésia na versão do filme em DVD: ele não veio ao mundo para confundir. Se o cinema é, por sua gama de possiblidades criativas, a arte em que o real tem mais chances de se aproximar do onírico, é curioso ver como um de seus expoentes não aproveita esses recursos para buscar algo novo, diferente da fórmula do sucesso pré-fabricado. O mais incrível é ele ser chamado de autor, quando no fundo não passa de um talentoso ilusionista.



#A ORIGEM (INCEPTION)

EUA, 2010

Direção e Roteiro: CHRISTOPHER NOLAN

Fotografia: WALLY PFISTER

Edição: LEE SMITH

Direção de Arte: FRANK WALSH

Música: HANS ZIMMER

Elenco: LEONARD DI CAPRIO, MARILLON COTILLARD, JOSEPH GORDON-LEVITT, ELLEN PAGE, KEN WATANABE, CILLIAN MURPHY, TOM BERENGER, TOM HARDY, DILEEP RAO, LUKAS HAAS, MICHAEL CAINE, PETE POSTLETHWAITE.

Duração: 148 minutos

Site oficial:: http://inceptionmovie.warnerbros.com/

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário