Especiais


43º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

26.11.2010
Por Daniel Schenker
FESTIVAL DE BRASÍLIA

O Céu sobre os Ombros : vitória em Brasília



O Céu sobre os Ombros , belo filme de Sérgio Borges, venceu a 43ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Ganhou cinco Candangos – melhor filme, direção, roteiro, montagem e prêmio especial do júri – numa cerimônia tumultuada devido ao fato de o resultado ter vazado na internet ainda durante a cerimônia. O júri – formado por Ana Miranda, André Brasil, Anna Muylaert, Antonio Carlos da Fontoura, Bidô Galvão, Erik de Castro e Kleber Mendonça Filho – acertou ao consagrar O Céu sobre os Ombros , mas exagerou nos prêmios destinados ao cifrado Os Residentes . Esqueceu completamente de contemplar os bons atores de Amor? , que teve que se contentar com o prêmio do público. O bom Transeunte ganhou com justiça os Candangos de ator, som e prêmio da crítica. Deveria ter levado o de fotografia também. Ao instigante A Alegria , de Felipe Bragança, coube os Candangos de ator coadjuvante e direção de arte. O documentário Vigias saiu sem nenhum prêmio.



Longa-metragem em 35mm



Melhor filme - O Céu Sobre os Ombros , de Sérgio Borges

Prêmio Especial do Júri - Aos personagens/atores do filme O Céu Sobre os Ombros

Prêmio Especial do Público - Amor? , de João Jardim

Melhor direção - Sérgio Borges, por O Céu Sobre os Ombros

Melhor ator - Fernando Bezerra, de Transeunte

Melhor atriz - Melissa Dullius , de Os Residentes

Melhor ator coadjuvante - Rikle Miranda , de A Alegria

Melhor atriz coadjuvante - Simone Sales De Alcântara, de Os Residentes

Melhor roteiro - Manuela Dias e Sérgio Borges por O Céu Sobre os Ombros

Melhor fotografia - Aluizio Raulino, por Os Residentes

Melhor direção de arte - Gustavo Bragança, de A Alegria

Melhor trilha sonora - Andre Wakko, Juan Rojo, David Lanskylansky e Vanessa Michellis por Os Residentes

Melhor som - Som Direto, Edicão de Som e Mixagem de Transeunte

Melhor montagem - Ricardo Pretti, de O Céu Sobre os Ombros











Primeiro Dia



A Alegria



Marcas de presença se impõem em várias das cenas de A Alegria , novo filme de Felipe Bragança e Marina Meliande que abriu a competição do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A maior parte das locações revela paredes sujas. Os espaços surgem poluídos, contaminados, desarrumados. Os corpos também se distanciam da assepsia: peles repletas de feridas ou com resquícios de tatuagem provisória, mãos borradas de caneta, vômitos súbitos no meio da rua.



Como em A Fuga da Mulher Gorila , em A Alegria os personagens vestem fantasias. Mas se no filme anterior a fantasia se tornava pele, aqui se despem e revelam suas peles. Claramente, os diretores abordam uma juventude imersa num tortuoso processo de descobertas pessoais. Luiza, a protagonista, enfrenta esse rito de passagem de maneira destemida. “Não adianta dizer para me acalmar. Já tem muita gente quieta no mundo”, exclama, ao final do filme. Seu primo, João, desaparece com o intuito de afirmar uma nova – e possivelmente verdadeira – identidade.



Há uma busca de naturalidade no registro interpretativo dos atores (em especial, dos adolescentes), uma tentativa de investir numa quebra da representação tradicional, que resulta, porém, em certa apatia. As ótimas Mariana Lima e Maria Gladys são desperdiçadas em participações pequenas. O “núcleo” das personagens – ambientado em Queimados, região da Baixada Fluminense, muito pouco aproveitada no cinema brasileiro e que reforça a apreciável vocação suburbana dos trabalhos de Bragança e Meliande – poderia ter sido mais desenvolvido. Marcio Vito se mostra expressivo em participação também episódica. Restrições à parte, A Alegria é, com certeza, um dos exemplares mais interessantes da nova safra do cinema nacional.



Segundo Dia



Transeunte



Eryk Rocha apresenta determinadas especificidades em Transeunte , sua primeira experiência no terreno da ficção: assina um quase monólogo praticamente destituído de fala durante parte considerável da projeção. Seu personagem, Expedito (interpretado por um expressivo Fernando Bezerra), é um homem solitário, na faixa dos 60 anos, que perambula pelas ruas do centro do Rio de Janeiro sem maiores perspectivas. Não tem o que dizer com os poucos com quem mantém algum contato – caso da sobrinha, que o visita por obrigação a cada aniversário.



Refugiado no anonimato de um prédio populoso, testemunha cenas do cotidiano, revelando conforto na posição de espectador de vidas alheias. Mas Eryk Rocha mostra transições importantes no percurso de Expedito. Ele começa a reatar vínculo mais intenso com o meio externo. Frequenta estádios de futebol e animadas noites musicais que o remetem a melodias do passado. Sua jornada, porém, não é nostálgica ou melancólica. A câmera observa Expedito – de início, de maneira um pouco mais distanciada (e documental, no que diz respeito ao movimento da cidade) e depois de forma mais amorosa. Perto do final, afasta-se um pouco, como se tivesse feito o seu trabalho de incluí-lo numa coletividade.



Expedito se torna uma figura mais radiante, mas o filme perde algo de sua potência. A cena em que ele finalmente toma coragem para cantar, simbólica do rompimento com o elo passivo que até então vinha travando com a vida, soa reiterativa. O foco se dispersa um pouco: o diretor destaca em demasia a animação das pessoas da faixa etária de Expedito. E, problema principal, Transeunte estende demais sua conclusão. Várias cenas anunciam um encerramento que demora a chegar.



Entretanto, há muitas qualidades nesse trabalho de Eryk Rocha. O diretor filma seu personagem em close e destaca fragmentos, retalhos, de corpos. O ser humano bate na tela como multiplicidade desconexa e não como unidade coerente (destaque para a fotografia de Miguel Vassy, em belo preto-e-branco). O trabalho de som (a cargo de Edson Secco) é a alma de Transeunte , que contrasta síntese e acúmulo ao entrelaçar a jornada de um solitário Expedito com uma sobreposição de sonoridades. A trilha sonora (de Fernando Catatau) emoldura o resultado com suavidade.



Terceiro Dia



Os Residentes



Um dos personagens de Os Residentes se refere, em determinado momento, à “utopia do teatro sem plateia”. A fala diz bastante sobre esse filme um tanto cifrado de Tiago Mata Machado. Não cabe cobrar concessões do diretor. É louvável, inclusive, a existência de trabalhos que não cedam à tentação do vínculo direto com o público. Mas há uma capa de hermetismo que atrapalha consideravelmente o resultado.



Machado lança pistas ao espectador, sem fornecer chaves de acesso. Faz de Os Residentes um filme que afirma e, ao mesmo tempo, debocha de uma cultura livresca. Contrasta diálogos que parecem improvisados com uma narração que soa literária. Em meio a uma junção de cenas repletas de frases desconexas, uma se impõe: aquela que flagra o embate passional de um casal, que fala sobre a incomunicabilidade no relacionamento. Como os personagens, os atores se mostram desestabilizados, mantendo, porém, controle sobre suas atuações.



Entretanto, as eventuais qualidades (pode-se citar o rigor estético, evidenciado, sobretudo, no expressivo uso de cores intensas, e a conexão com as artes plásticas, pertinente numa época em que as fronteiras entre as manifestações artísticas vêm sendo cada vez mais questionadas) não salvam um filme que acumula referências (Jean-Luc Godard, principalmente) e se leva muito a sério.



Quarto Dia



O Céu sobre os Ombros



Diante de uma câmera, ninguém permanece indiferente. Mas impressiona, em O Céu sobre os Ombros , a presença desarmada dos atores/personagens reais captados pelo diretor Sérgio Borges. Ainda mais pelo fato de a câmera registrá-los tão de perto. É difícil detectar algum resquício de artificialidade. A ausência de representação fica especialmente evidente na cena em que Lwei Bakongo fala para a mulher sobre o sofrimento na relação com o filho portador de problema mental.



A câmera evidencia o que talvez possa ser considerado o grande tema do filme: o corpo. Abordar o corpo através da trajetória da transexual Everlyn Barbin é esperado. Mas o cineasta também registra os corpos de Lwei, atravessado por tragédias familiares, e Murari Krishna, que concilia o trabalho cotidiano em restaurante e numa empresa de telemarketing com uma forte espiritualidade. Em O Céu sobre os Ombros , ninguém é uma coisa só. Na contramão de categorizações, Borges mostra uma Everlyn que concilia a atividade acadêmica com a prática da prostituição.



Integrante da produtora Teia (que reúne alguns dos cineastas mais promissores da safra de Minas Gerais), o diretor potencializa as jornadas solitárias de seus personagens ao filmá-los em separado em cenas de diálogo: em várias passagens, o espectador vê aquele que fala ou o que escuta, mas não um diante do outro. Em meio a produções que evidenciam disposição para o risco, O Céu sobre os Ombros foi, até agora, a grande revelação do Festival de Brasília.



Quinto Dia



Amor?



Os atores de Amor? surpreendem na interpretação de depoimentos reais de pessoas que sofreram com a violência em relações amorosas. Portam falas relativas a vivências que não correspondem às suas realidades. A qualidade dessa apropriação é o grande mérito do filme de João Jardim. O elenco trabalha o tom confessional com propriedade, mas, ainda assim, cabe destacar Mariana Lima, seguida de perto por Silvia Lourenço e Julia Lemmertz.



A comparação com Jogo de Cena é inevitável; não inviabiliza, porém, a empreitada de Amor? . Diferentemente do ocorrido com o documentário de Eduardo Coutinho, aqui todos são atores. João Jardim destaca a reverberação física das falas (principalmente, as mãos). Aproxima a câmera dos rostos na hora do depoimento e dos corpos nas cenas de sexo.



O diretor repete determinados procedimentos: frequentemente, o texto do depoimento começa a ser registrado em off para, em seguida, a câmera focar o ator, primeiro de frente e depois de perfil. Ainda assim, algumas opções suscitam certo interesse. Exemplos: a sombra dos entrevistadores cujas vozes soam neutras; e o entrelaçamento de falas de duas personagens, tornando-se impossível distinguir qual informação é referente a uma ou a outra. Fraca a trilha sonora de Lenine, escorada em músicas conhecidas.



Sexto dia



Vigias



Há o que talvez se possa chamar de uma estética do “feio”, na contramão de um tratamento formal maquiado, no documentário Vigias , de Marcelo Lordello. Ao flagrar o cotidiano de vigias em prédios da região do Pina, em Recife, o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo filma cenas escuras (tomadas noturnas) demarcadas por luz fria. Grades e plantas evidenciam o divórcio entre os condomínios e a rua. Escolheu, na maior parte das vezes, prédios antigos, distantes das modernas construções arrojadas e frias. O som, tanto o ambiente quanto o do rádio, se impõe de modo rascante.



Entrevistados, os vigias falam sobre a relação com a solidão do trabalho durante a madrugada, o temor dos bandidos e o apego à religiosidade. Mas os depoimentos não são o forte de Vigias . Nem a longa jornada noite adentro do filme, que termina de manhã com a partida dos vigias para casa. O que realmente sobrevive após o fim da projeção é uma proposta estética distante da artificialidade.



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