Críticas


TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

De: APICHATPONG WEERASETHAKUL
Com: THANAPAT SAISAYMAR, SAKDA KAEWBUADEE, MATTHIEU LY
26.01.2011
Por Daniel Schenker
ANCESTRALIDADE NA NATUREZA

“O céu é superestimado. Não tem nada lá. Fantasmas estão atrelados a pessoas, não a lugares”, diz Huay, a falecida mulher de Boonmee, quando ele lhe pergunta como fazer para que seu espírito a encontre depois de morto. Apichatpong Weerasethakul, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2010 com este Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas , caminha na contramão de clichês esotéricos.



A aparição dos fantasmas de pessoas mortas ou desaparecidas – além de Huay, que “retorna” nos últimos momentos de vida de Boonmee, vítima de insuficiência renal, Boonsong, filho de ambos que sumiu alguns anos depois da morte da mãe, e “volta” materializado em outra forma de existência – não é glamourizada. Surgem de maneira serena e não são vistos apenas por um personagem específico, mas por todos. Aqueles que acompanham Boonmee, retirado numa casa incrustada numa densa floresta, não se espantam muito com a ocorrência do sobrenatural. Os fantasmas são visões concretas, espíritos corporificados, que não despontam como assombros. Jamais descambam para o ridículo – evidência do domínio cinematográfico de Weerasethakul.



Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas traça um elo entre a imersão na natureza e o encontro com a ancestralidade. “Essa caverna é como um útero. Eu nasci aqui. É como uma vida que eu não consigo lembrar”, diz Boonmee, na peregrinação pela caverna em que nasceu e onde irá morrer. A sequência da princesa que se depara e sofre com a imagem do rosto jovial no espelho d’água e acaba sendo seduzida por um bagre, banhada em impressionante luz fria, é deslumbrante.



Uma partitura formada por sons da natureza se impõe como elemento determinante à apreciação do filme, uma experiência que exige desaceleração por parte do espectador. O cineasta tailandês, que já impôs sua singularidade em trabalhos como Mal dos Trópicos e Síndromes e um Século , investe em ritmo contemplativo. Sem perder de vista a abordagem existencial, Weerasethakul salpica referências políticas por meio de menções à imigração e ao assassinato de comunistas relacionadas às evocações de Laos.



# TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (LOONG BOONMEE RALEUK CHAT)

Espanha/França/Alemanha/Reino Unido/Tailândia, 2010

Direção e Roteiro: APICHATPONG WEERASETHAKUL

Produção: SIMON FIELD, DANNY GLOVER, APICHATPONG WEERASETHAKUL

Fotografia: YUKONTORN MINGMONGKON, SAYOMBHU MUKDEEPROM

Montagem: LEE CHATAMETIKOOL

Elenco: THANAPAT SAISAYMAR, SAKDA KAEWBUADEE, MATTHIEU LY

Duração: 113 minutos









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