Críticas


SEQUESTRO DE UM HERÓI, O

De: LUCAS BELVAUX
Com: YVAN ATTAL, ANNE CONSIGNY, ANDRE MARCON
27.03.2011
Por Marcelo Janot
NEM MOCINHO NEM BANDIDOS

Stanislas Graff é um dos empresários mais poderosos da França. Os sequestradores pedem 50 milhões de euros pelo seu resgate. A negociação se arrasta porque a grana é alta e escândalos de sua vida particular vêm à tona. Ele sobreviverá? O suspense envolve, mas não é apenas isso que torna o filme francês O Sequestro de Um Herói (Rapt) imperdível.



O diretor e roteirista Lucas Belvaux oferece um estudo das relações humanas no mundo pragmático e individualista em que vivemos, pelo viés social, político e econômico, buscando a reflexão sem tomar partido. O título brasileiro mente: Stanislas não tem nada de herói. É arrogante, trai sua mulher, não é o que se pode definir como um pai de família exemplar. Mas o filme não vai julgá-lo: cabe ao espectador interpretar sua postura dele como quiser, a ponto de avaliar se aquele ser humano submetido ao cativeiro merece despertar pena ou desprezo.



Não há mocinhos nem bandidos no filme. Os atos de crueldade dos seqüestradores não são justificados porque eles são maus, e sim porque são profissionais do crime e dentro de sua estratégia cabe o terror e a violência. Não são máquinas de matar como no cinema hollywoodiano. Um deles diz a Stanislas que tudo o que quer é poder usar o dinheiro do resgate para ter momentos de lazer como os do empresário. Seres humanos, enfim.



A preocupação com o futuro da empresa presidida por Stanislas, por parte da diretoria e acionistas, também é outro tema abordado brilhantemente pelo filme, assim como a condução do caso pela polícia. A hipótese de que ele pudesse ter forjado o próprio seqüestro para usufruir do dinheiro, a possibilidade de um golpe orquestrado dentro da empresa, ou o envolvimento amoroso da mulher traída e carente com o policial designado para protegê-la, tudo isso seria cabível num roteiro hollywoodiano cheio de clichês, mas que passa longe do filme Belvaux, que fez um filme de gênero sem recorrer aos clichês de thriller policial.



Ele poderia ter se preocupado apenas em narrar a história de um sequestro, o que aliás é feito de forma extremamente convincente. Desde o momento em que o carro do empresário é abordado até o longo período no cativeiro e a tensa negociação, tudo é filmado com realismo, sem recorrer a maneirismos de câmera ou situações dramáticas desnecessárias.



E por falar em Hollywood, essa produção francesa de 2009 terá um remake hollywoodiano dirigido pela dinamarquesa Susanne Bier, vencedora do Oscar por Em Um Mundo Melhor. Remake? Não precisava, pois não há como melhorá-lo. Resta torcer para que Susanne ao menos consiga respeitá-lo.



# O SEQUESTRO DE UM HERÓI (RAPT)

FRANÇA, 2009

Direção e Roteiro: LUCAS BELVAUX

Fotografia: PIERRE MILON

Edição: DANIELLE ANEZIN

Música: RICCARDO DEL FRA

Elenco: YVAN ATTAL, ANNE CONSIGNY, ANDRE MARCON

Duração: 125 min.

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