Críticas


MORRO DO CÉU + RECIFE FRIO

De: GUSTAVO SPOLIDORO + KLEBER MENDONÇA FILHO
24.06.2011
Por Carlos Alberto Mattos
DE RECIFE A COTIPORÃ

O que pode haver em comum entre o curta Recife Frio e o longa Morro do Céu, reunidos no lançamento da Sessão Vitrine esta semana, além de serem dois dos melhores filmes realizados no Brasil nos últimos anos?



Não muita coisa, certamente. O fenômeno atmosférico que congela a Recife imaginada por Kleber Mendonça Filho nem chega a aproximá-la do sul ensolarado que Gustavo Spolidoro capturou. Recife Frio é um falso documentário supostamente rodado por uma equipe da TV argentina, e usa o código da sátira para falar de coisas graves como a desumanização das cidades e o jequismo do consumo cultural de massa. Morro do Céu, por sua vez, faz do cinema de observação radical uma ferramenta para plasmar um modo de vida interiorano e bucólico.



O que esses dois filmes têm mesmo em comum é consagrarem dois diretores companheiros de geração e cujas carreiras, iniciadas nos anos 1990, exprimem um desejo contínuo de aprimoramento, experimentação e comunicabilidade. Kleber, dublê de crítico e realizador, fez curtas originais como Vinil Verde e Eletrodoméstica, além do longa Crítico. Gustavo tem curtas premiadíssimos como Velinhas e De Volta ao Quarto 666, mais o virtuosístico longa em plano-sequência Ainda Orangotangos. Recife Frio e Morro do Céu são suas respectivas obras-primas até o momento. Neles, o domínio de modelos narrativos é excepcional.



Morro do Céu observa o cotidiano do “guri” Bruno Storti na pequena Cotiporã, colônia de imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Bruno passeia com os amigos pelos arredores, tenta capturar a atenção de uma menina com mensagens pelo rádio e o celular, trabalha na lavoura da família, restaura uma moto, conversa com os pais sobre o futuro e a Itália. As ações são fragmentadas, mas a edição vai formando linhas de continuidade que sugerem um fluxo dramático ficcional. Tudo respira singeleza, calma e intimidade, numa paisagem montanhosa e verdejante que ajuda a contextualizar as sensações experimentadas por Bruno. A introspecção do menino é um dado que o diretor utiliza a seu favor. Ele monta o filme no diapasão do personagem, em vez de forçar uma “expressividade” artificial que fosse mais propícia a uma suposta economia narrativa.



Durante quatro meses de filmagem, Gustavo Spolidoro trabalhou praticamente sozinho, fazendo imagem e som. A câmera, quase sempre fixa no tripé, colhe cenas espontâneas no figurino ideal do cinema direto americano, como uma mosca na parede. Mas esta é uma mosca caprichosa, atenta à beleza das composições e à eloquência da luz.



Nada mais distante desse naturalismo minuciosamente burilado do que o jorro de ideias mordazes presente em Recife Frio. Como em A Menina do Algodão e Vinil Verde, Kleber trabalha entre o carinho e a ironia para com os gêneros cinematográficos. Neste caso, a ficção científica e o mockumentary, ou pseudo-documentário, tirando sarro com a linguagem da televisão e provocando um riso crítico e fecundo. Mesmo para quem não conhece as vicissitudes da capital pernambucana, ou não percebe em toda sua extensão a bela homenagem final a Lia de Itamaracá e ao clássico neorrealista Milagre em Milão, o filme tem apelo imediato e ressonância em qualquer um. Estou longe de ser o único a considerar Recife Frio o melhor curta feito no Brasil desde Ilha das Flores.



>>> O programa duplo fica em cartaz até quinta-feira próxima no Cine Joia (Rio), na sessão das 20h30. Clique aqui para ver a programação em outras cidades.

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