Críticas


LOLA

De: BRILLANTE MENDOZA
Com: ANITA LINDA, RUSTICA CARPIO, TANYA GOMEZ, JHONG HILARIO
26.07.2011
Por Carlos Alberto Mattos
CANAIS DE MANILA

Lola, de Brillante Mendoza, nos coloca no centro de um labirinto angustiante. A cidade é dura, caótica e violenta. O tempo da estação úmida não colabora para melhorá-la, inundando de chuva e açoitando com vento as ruas e canais de palafitas. A câmera não para quieta, como se agitada também pelo estado de emergência permanente.



O filme deveria se chamar no Brasil “Avós”, que é a tradução da expressão filipina “Lola”. Na trama, duas avós se esforçam para remediar a perda dos netos – o de uma matou o da outra e está na cadeia. Um enterro e um julgamento estão à espera de que as coisas se resolvam pela reverência devida às avós numa sociedade fortemente baseada na unidade famíliar. Como no neorrealismo italiano, que tanto inspira o estilo de Mendoza neste filme, essa história mínima se abre para mostrar o funcionamento da sociedade. E aqui encontro um motivo de admiração especial por Lola. É como o diretor usa o cenário de Manila para exprimir o modus vivendi de sua população mais pobre.



Tudo se passa entre ruelas, becos e canais aquáticos, os “esteros”, que de solução para o escoamento da produção agrícola para a cidade transformaram-se num pesadelo, fonte de doenças e enchentes. A forma de labirinto, onde o espectador nunca sabe bem onde os personagens se encontram a cada momento, remete aos canais de uma economia e uma justiça informais em que tudo se resolve à margem da lei. Tal como o dédalo geográfico, as relações interpessoais e dos indivíduos com o poder se dão por vias tortuosas, através de negociações indiretas, penhoras, tráfico de favores, burocracia infernal, superstições etc.



É bastante comovente ver como as duas avós, desconhecidas entre si e separadas por um crime, se aproximam na busca da dignidade para suas famílias. Mendoza trata isso com extrema sutileza. É como se a intrincada rede de “canais” da história desembocasse, afinal, numa pequena praça comum de humanidade.

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