Críticas


ALEGRIA, A

De: FELIPE BRAGANÇA e MARINA MELIANDE
Com: TAINÉ MEDINA, FLORA DIAS, RIKLE MIRANDA, JÚNIOR MOURA
20.08.2011
Por Carlos Alberto Mattos
FANTASIAS SEM CORPO

Comédia adolescente, aventura de super-heróis, conto de fadas, ensaio poético, drama de periferia – os gêneros cinematográficos se acotovelam em A Alegria. No entanto, o filme não quer ser nada disso, mas algo que estaria muito além: um comentário sobre os gêneros, na medida em que as potências de cada um estariam esgotadas pelo cinema mainstream. Seria preciso, então, inventar um tipo de filme que seja um misto de referência e rejeição, adesão e repulsa.



Assim é que temos mais um exemplar de filme jovem brasileiro que se perde nas vielas entre ser e não ser. Ao ver A Alegria, lembrei-me bastante do longa de estreia de Eduardo Valente, No Meu Lugar, em que uma compulsiva recusa à classificação gerava uma experiência amorfa, inabordável. A Alegria é o segundo tomo da trilogia Coração de Fogo, iniciada por A Fuga da Mulher Gorila e concluída com o ainda inédito Desassossego, um filme coletivo. Narra o verão de quatro adolescentes cariocas entre o cotidiano banal e pequenas fantasias. Luíza, a protagonista, lida ao mesmo tempo com o início do namoro com um colega de escola, a clandestinidade de um primo misteriosamente baleado no pé e a paranoia de um monstro marinho que vai chegar para engolir o Rio de Janeiro. O material seria ótimo para inventariar o universo juvenil de uma cidade bela e violenta, caso a tentativa não mergulhasse num coquetel de citações e numa lagoa de monotonia.



Felipe Bragança e Marina Meliande são cinéfilos apaixonados e empenhados em transformar a cinefilia em produção original. A Alegria tem alusões a pelo menos três grandes correntes do cinema moderno e contemporâneo. Da Nouvelle Vague vêm a narrativa descontínua, o amor pelos solilóquios, a cidade vista pelos seus pontos de fuga. O cinema marginal brasileiro dos anos 1970 comparece nos esgares escatológicos, na negação da interpretação naturalista, na conversão da política à performance de mentirinha, na mistura meio tropicalista de realidade com signos pop e até mesmo no Monstro Marinho que lembra o Homem de Papel de Hitler do III Mundo. Por fim, a admiração pelo novo cinema asiático (há mesmo um agradecimento a Apichatpong Weerasethakul nos créditos) se manifesta nos trânsitos entre pessoas, animais míticos e seres sobrenaturais, nas aparições e desaparições mágicas, além de metáforas ligadas a água, frutas, luz, etc. Num dos melhores planos do filme, perto do final, Luíza se transfigura numa espécie de pantera.



A coleta de inspirações, em si, não é nenhum problema se dá margem à criação de uma obra potente e também inspiradora. Mas em A Alegria elas, as inspirações, se enfileiram como tal, assim como um tecido contra a luz que deixa à mostra sua trama. Não há background cultural e estético para aquelas afetações. Elas caem no vazio de uma fantasia que, a rigor, não cobre corpo nenhum.



O tom monocórdico das falas do elenco jovem, o laconismo das sequências que terminam apenas porque a edição resolveu terminar, a lerdeza dos movimentos que vampirizam teatralmente a pulsão de juventude dos personagens, nada contribui para a adesão que o filme parece almejar, por exemplo, quando lança mão do Hino à Alegria de Beethoven. Ou quando, em outro bom momento, Luíza se atira contra a parede e se transforma em jato de luz saltando pelos apartamentos do seu bairro.



Existe um esboço de poesia nessa convivência de um fantástico soft com o comezinho dos apartamentos apertados de classe média baixa, das ruas de bairros populares e de uma “natureza” que mais sugere um quintal. As minúsculas aventuras dos quatro amigos nessa cidade que lhes parece indiferente seriam, em tese, arremedos de heroísmo e superpoder travados por uma angústia vagamente existencial. Mas, para perceber isso, o espectador não é servido com os talheres do cinema. Precisa pegar com a mão as frases ditas ou escritas na tela, grudar-se nelas para tirar algum sentido do que se esvai nas imagens como travessura intelectualizada e, no fim das contas, bastante estéril.

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