Críticas


PACIFIC

De: MARCELO PEDROSO
26.08.2011
Por Carlos Alberto Mattos
A CONSCIÊNCIA EM FÉRIAS

A simpaticíssima Sessão Vitrine está de volta com um dos filmes brasileiros mais comentados das recentes safras. Pacific é fruto da novíssima onda pernambucana, celeiro de fortes personalidades autorais como Kleber Mendonça Filho (não tão novo assim), Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso. Eles sucedem a geração de Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Marcelo Gomes, Claudio Assis e Hilton Lacerda.



Mas Pacific é um filme especial, mesmo dentro desse grupo especial. A começar pelo fato de que não foi rodado por quem assina o filme. À exceção dos letreiros iniciais que explicam a proposta, tudo o que vemos foi filmado por turistas a bordo de cruzeiros para Fernando de Noronha. A equipe se limitava a observar os grupos e famílias que se registravam durante os seis dias de viagem. Ao final, pedia autorização para usar cópias do material num documentário. O filme monta cenas de quatro cruzeiros de maneira a criar a continuidade de uma única viagem.



O contexto é, certamente, de deslumbramento pequeno-burguês. O material, por natureza ingênuo e lúdico, cria um distanciamento característico. É a consciência em férias. Uma sensação catártica perpassa as falas fascinadas pelas atrações do navio, as “bocas livres”, a expectativa da chegada ao tão sonhado “paraíso” de Noronha. As imagens oscilantes, estouradas, erráticas são expressões mais de uma exaltação pessoal que de um desejo de mostrar ou informar. É pura celebração em miniDV.



Esse fluxo polifônico, que passa de um grupo a outro, tem seus momentos especiais. Um casal, por exemplo, filma-se fazendo poses elegantes, mas supostamente naturais, nas dependências do navio. Outro imita a cena do deck de Titanic. Uma menina filma os pais na intimidade da cabine. E por aí afora. Quando chegamos à última cena, o reveillón de 2009, apesar do enjoo com as trepidações das imagens amadoras (boa referência às oscilações do navio), podemos mesmo sentir uma certa ternura por essa estética naif e ultra-clichê.



O efeito principal de Pacific (ou “Pacifíque”, como pronuncia uma voz nordestina) é de um deslocamento quase dadaista. Aquelas imagens e aqueles sons não foram feitos para serem vistos por nós, muito menos numa sala de cinema. Ali somos voyeurs de algo feito para consumo doméstico e privado. O mero voyeurismo só é superado pelas projeções e reflexões que cada espectador produz a partir do que vê. Ao mesmo tempo, precisamos ter sempre em mente que aquelas cenas não foram feitas pela equipe do filme. Nos documentários que usam cenas de arquivo junto a outros materiais, esse código está sempre muito presente. Aqui não, pois tudo é só e radicalmente alheio.



Por muitas razões, Pacific nos coloca num estranho lugar como espectadores.



>>> Pacific será exibido de 26/8 a 1/9, sempre às 20 horas, no Cine Joia, complementado pelo curta Fantasmas, de André Novais de Oliveira.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário