Críticas


AVENTURAS DE TINTIN, AS

De: STEVEN SPIELBERG
Com: JAMIE BELL, ANDY SERKIS, DANIEL CRAIG
15.01.2012
Por Patricia Rebello
TINTIN, PARA MAIORES E MENORES

Quando soube que Steven Spielberg queria adaptar para o cinema seu personagem, o jovem detetive Tintin, Hergè - pseudônimo do belga Georges Remi - disse: "Eu serei traído; mas com ele, eu o serei talentosamente". Isso aconteceu pouco antes da morte do desenhista, em 1983. E segundo conta Fanny, viúva do autor belga, ele acreditava que apenas o diretor de Contatos Imediatos de Terceiro Grau(1977) seria capaz de levar sua criação para a tela à altura. Hergè havia ficado encantado com o primeiro trabalho de Spielberg, Encurralado(1971): assim como em seus quadrinhos, o filme tirava sua força de uma economia de elementos narrativos, e parecia se divertir chamando o espectador para um jogo de mostra-e-oculta, preferindo sugerir aquilo que pode estar escondido por trás da imagem. Já Spielberg conheceu Hergè alguns anos mais tarde: em 1981, quando lançou Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, ele leu uma crítica francesa que comparava o filme às aventuras do detetive. Spielberg se apaixonou pelo personagem e, em fins de 1982, comprou os direitos de adaptação da obra para o cinema. Com a morte de Hergè, as conversas esfriaram, Spielberg começou a enviesar para a produção de filmes "adultos" como A Cor Púrpura, Império do Sol e Além da Eternidade, e o projeto foi para a gaveta.



Trinta anos depois, penso que Hergè ficaria satisfeito com o resultado. As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne procura ser fiel em relação ao personagem dos quadrinhos: da opção por respeitar os traços originais de Hergè à forma como o diretor apresenta TinTin ao espectador, logo no começo do filme. Uma mistura de animação tradicional com a tecnologia de motion capture (captação do movimento de atores reais para animar os personagens), o filme ganha ao abrir mão de usar a técnica para obter um efeito "realista". Parece uma coisa meio óbvia de se observar em se tratando da adaptação de uma história em quadrinhos. Mas basta lembrar da humanização dos macacos que há pouco se rebelavam nas telas, ou da empatia que os Na´vi da Pandora de Avatar despertavam: o que até pouco tempo era sugestão, e que dependia de um duplo esforço, do ator de encarnar e nosso de imaginar, já nos chega pronto. Mas diferente de macacos e extraterrestres "gente como a gente", Tintin, o cachorrinho Milu, Capitão Haddock e os detetives Dupond e Dupont continuam com a cara, o jeito e o traço dos quadrinhos. Um pouco como se fosse possível colocar à prova nossa imaginação e tentar encontrar no filme os movimentos que nossa própria imaginação imprimiu no desenho. Credite-se a isso, também, o excelente trabalho dos atores que emprestaram seu talento aos personagens principais: Jamie Bell (o eterno Billy Elliot) e Capitão Haddock (Andy Serkis, que deu movimentos ao Gollum do Senhor dos Anéis e ao Caesar de Planeta dos Macacos).



Mas isso não significa que o Tintin de Spielberg só faz sentido "para maiores". Ao contrário: a história das aventuras do jovem detetive em busca dos pergaminhos perdidos do Licorne, capazes de desvendar o segredo de família do capitão Haddock, e suas escapadas do vilão Sackarine, é forte candidata a filme de verão da garotada, Indiana Jones for kids, para ficar na comparação onde tudo começou. As sequências de ação são bárbaras, e o efeito da terceira dimensão não está interessado simplesmente em fazer pedras e bananas de dinamite explodirem no nariz do espectador, mas em criar uma profundidade de cena que abre para nós a sensação de estar entrando no mundo de Tintin. Um mundo sem dialéticas, onde a única bala do revólver sempre acerta o alvo, tem sempre um mapa para o tesouro escondido, a chave do mistério está sempre em um país exótico (de preferência no Oriente), o mocinho sempre se safa no último segundo e o bem sempre triunfa sobre o mal. É claro que um Tintin de Spielberg chega às telas um tanto quanto americanizado: os diálogos são todos em inglês, e o ritmo da ação lembra muito mais o cinema americano que o cinema francês. Para não mencionar a petulância em alterar o nome do cachorrinho Milu para Snowy(?). Coisa de que é poupado quem optar por assistir à versão dublada, que respeita todos os nomes da história original. A propósito, fica a indicação da versão dublada em detrimento da legendada: não apenas pelos nomes, mas pela oportunidade de observar o fenomenal trabalho de Andy Serkis (num exercício de crueldade, experimente comparar a performance de Tintin e Haddock para compreender do que se trata), bem como os detalhes desse mundo encantado. Mas ainda assim, é uma delícia começar o filme com algumas citações discretas de Pickpocket, de Robert Bresson, e desfrutar do charmoso climão europeu dos anos 1920-30 que vez ou outra pesponta no filme.



E, só pra terminar, é curioso colocar lado a lado a trajetória do personagem do filme com a do próprio diretor: se As Aventuras de Tintin começa e termina no mesmo ponto (esse é apenas o primeiro filme de uma série de três; nos outros dois, Steven Spielberg e J.J. Abrams, que entra aqui como produtor, invertem as posições), não tem como não pensar que o personagem do detetive também leva Spielberg de volta ao ponto de partida, de volta aos filmes onde os heróis, como Indiana Jones, não passam por processos existenciais, crises de consciência ou transformações. Mas, diferente de Tintin, que permanece o mesmo uma aventura atrás da outra, é curioso como o filme mais "infantil" do diretor também seja aquele que mostra que ele... cresceu. Definitivamente. É claro que A.I, Minority Report, Guerra dos Mundos e Munique já testemunhavam um processo de "crescimento": afinal, crescer dói, envolve tomar consciência e retirar véus. Mas confesso que me dá uma certa angústia não encontrar em um filme "para crianças" como As Aventuras de Tintin a magia de E.T, Contatos Imediatos e Tubarão, estes sim, filmes que pareciam escritos e dirigidos por crianças. O menino que passou um tempão correndo atrás de sua própria sombra teve, finalmente, a sombra costurada a seus pés.



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