Críticas


SHAME

De: STEVE MCQUEEN
Com: MICHAEL FASSBENDER, CAREY MULLIGAN
16.03.2012
Por Carlos Alberto Mattos
OS CORPOS DE STEVE MCQUEEN

Seu nome artístico é idêntico ao do louro e anguloso galã americano de Bullitt, Papillon e Crown, o Magnífico. Mas as semelhanças terminam aí. Steve McQueen, o diretor de Shame, é um negro e corpulento inglês que já jogou muito futebol, mas cedo trocou os gramados pelo piso lustroso dos museus de arte contemporânea. Shame, com seus parcos diálogos e muita presença corporal, herda características de alguns curtas experimentais e videoinstalações do autor. Bear (1993), por exemplo, apresentava dois homens nus (um deles o próprio McQueen) que trocavam olhares variando entre o flerte homossexual e a agressão. Em Deadpan (1997), uma casa desmoronava em torno do corpo do artista, que permanecia imóvel e indiferente.



Brandon, o personagem de Shame vivido por Michael Fassbender numa atuação que muitos (eu nem tanto) consideraram digna de um Oscar, é mais uma variante desse corpo másculo colocado em situação-limite. Fassbender é o novo Daniel Day-Lewis, com quem divide a mesma intensidade e até certa semelhança física. Ela já fizera o papel central de Hunger, o primeiro longa de McQueen. Nesse filme, a meu ver bastante superior a Shame, o ator vivia Bobby Sands, o líder da greve de fome e de higiene dos prisioneiros do IRA em 1991. Fassbender emagreceu 16 quilos durante as filmagens, chegando a um estado semicadavérico nos dias finais do militante. Hunger mostrava a resistência do corpo como derradeira arma política.



Em Shame, o corpo é a fonte de vergonha que abala o cotidiano de Brandon, um homem viciado em sexo virtual e solidão. A maneira como McQueen constrói seu personagem, sem muitas explicações psicológicas nem contextualizações, é típica de seus procedimentos narrativos. Suas melhores cenas são aquelas sem diálogo, como a paquera no metrô que abre o filme – um contato sexual que progride pelos olhares e meios sorrisos. Ele faz um cinema basicamente de sensações, usando os tons da fotografia para “dizer” o que não vem em palavras nem cenas descritivas. “O que pode agarrar uma plateia são os elementos táteis do cotidiano”, já declarou a respeito de suas escolhas. A impressão de enclausuramento e mal-estar que prevalecia em Hunger, todo ele filmado em celas e corredores de um set-presídio, dá as cartas também em Shame, embora este se passe em ruas, prédios e principalmente no metrô de Nova York. Mas é uma Nova York átona, descolorida e depressiva, muito bem expressa na maneira como Sissy (Carey Mulligan), a irmã autodestrutiva de Brandon, canta New York, New York num clube noturno. Eu nunca imaginei que esta canção celebratória pudesse adquirir ritmo e tom de canto fúnebre (veja a cena).



A trilha sonora atmosférica de Shame é um de seus pontos fortes, ao passo que Hunger não tinha um único acorde musical. De resto, o filme se organiza em tempos flutuantes, descontínuos e fragmentados, que em certas cenas de rua evocam o estilo de John Cassavetes, sobretudo em Amantes. Críticos-psicanalistas como meu colega Luiz Fernando Gallego poderão apontar vínculos entre as relações que Brandon estabelece (ou tenta estabelecer) com parceiras de todo tipo e o laço neurótico e possivelmente traumático entre ele e a irmã. Mas as pistas que McQueen deixa pelo caminho são tênues e vagas. O que lhe interessa é sobretudo usar o cinema como uma espécie de espelho deformante, mas que assim mesmo restitui uma verdade mais profunda sobre os corpos que reflete.

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