Críticas


CHICAGO

De: ROB MARSHALL
Com: RENÉE ZELLWEGER, CATHERINE ZETA-JONES, RICHARD GERE
09.03.2003
Por Marcelo Janot
CORRETO, IMPECÁVEL E EMPOLGANTE

Antes de qualquer coisa, é preciso levantar uma questão: baseado em que costuma-se dizer que as novas platéias não gostam de filmes musicais, daqueles em que os personagens cantam quase o tempo todo? Quem tiver um dado concreto provando que isso é verdade, por favor envie por e-mail para janot@criticos.com.br. O que é fato comprovado é que filmes recentes como Moulin Rouge, de Baz Luhrmann, e Chicago tiveram ótima aceitação de público e crítica no grande circuito, o mesmo podendo-se dizer de Todos Dizem Eu Te Amo, de Woody Allen, e Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, estes no circuito independente.



Há, isso sim, um certo desgaste na expressão “musical da Broadway”, que para muitos ainda é sinônimo de produções teatrais grandiosas, artificiais, excessivamente melodramáticas ou cômicas, caretas e de gosto duvidoso, embora espetáculos como Rent ou os do grupo Stomp sejam sinônimo de renovação no gênero.



Chicago tem coreografias teatrais, o artificialismo teatral, o luxo teatral, a iluminação teatral, as músicas teatrais...mas apesar de todos esses elementos, tem mais cara de cinema do que de teatro filmado. E aí o mérito é de muita gente: do diretor estreante Rob Marshall, do roteirista Bill Condon (vencedor do Oscar pelo roteiro de Deuses e Monstros), do diretor de fotografia Dion Beebe e do elenco principal, formado pelo afiadíssimo trio Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones e Richard Gere. Sem falar na ótima música original de Fred Ebb e John Kander, importada da versão teatral.



A grande sacada de Marshall foi a de preservar, além da música, boa parte dos elementos criados pelo coreógrafo Bob Fosse quando este adaptou Chicago para os palcos da Broadway, na década de 70, e traduzi-los cinematograficamente de forma inteligente - como, aliás, o próprio Bob Fosse já havia feito em 1972 com Cabaret, cuja versão para o cinema faturou oito Oscar. O que mais impressiona em Chicago, além do fato de o filme ser quase inteiramente ambientado em um mesmo espaço (o presídio), é como os extensos números musicais se integram à narrativa sem quebrar o ritmo acelerado da trama, misturando realidade com os sonhos da aspirante a estrela Roxie Hart (Zellweger).



Apesar de ambientado na década de 20, Chicago é atualíssimo enquanto crônica social. O cerne de sua discussão está centrado em três vértices: os bastidores do showbiz, a banalização do crime e a deformação do processo judicial. Há ainda observações sobre o poder da imprensa, e a forma como ela é facilmente manipulável. Todas essas questões não são abordadas como tratado sociológico, mas em tom leve, bem-humorado, embora com ironia e acidez – afinal, o quadro social desenhado por Chicago é de uma podridão absoluta, uma terra de espertos onde o bom mocismo e a ética sempre levam a pior.



O número musical em que Richard Gere faz Renée Zellweger de boneco de ventríloquo para uma platéia de jornalistas marionetes, representando uma entrevista coletiva, é a síntese de como realidade e artificialismo se casam à perfeição nesse filme que não tem a ousadia e os arroubos criativos de Moulin Rouge, mas que cumpre à risca seu objetivo enquanto cinema: entreter com inteligência. Chicago é como um daqueles desfiles corretíssimos e impecáveis da Imperatriz Leopoldinense, só que com muita empolgação no lugar da frieza.



# CHICAGO

EUA, 2002

Direção: ROB MARSHALL

Roteiro: BILL CONDON

Produção: MARTIN RICHARDS

Fotografia: DION BEEBE

Montagem: MARTIN WALSH

Música: JOHN KANDER e FRED EBB

Elenco: RENÉE ZELLWEGER, CATHERINE ZETA-JONES, RICHARD GERE, JOHN C. REILLY, QUEEN LATIFAH, LUCY LIU

Duração: 113 min.

site: www.miramax.com/Chicago/index.html

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