Críticas


HELENO

De: JOSÉ HENRIQUE FONSECA
Com: RODRIGO SANTORO, ALINNE MORAES, ANGIE CEPEDA
06.04.2012
Por Carlos Alberto Mattos
HELENO SEM DOCUMENTO

Quero destacar um aspecto abordado rapidamente na resenha de Ely Azeredo

sobre Heleno em O Globo: o filmaço de José Henrique Fonseca “não se propõe a documentar a vida e a obra de Heleno de Freitas”. De fato, para quem anda chateado com a recorrente utilização de recursos documentais nos filmes de ficção brasileiros, notadamente os de caráter biográfico, Heleno é uma exceção refrescante. Não há traços de testemunho, arquivos ou improvisação naturalística (a não ser na cena da conversa com os internos do sanatório). As fotos do Heleno real nos créditos finais são apenas um lugar-comum bem vindo nesse tipo de filme.



Há uma falsa insinuação de “documento”, logo no início, quando a câmera percorre uma parede coberta de jornais com manchetes das artimanhas do ídolo botafoguense. Mas não demora muito para vermos que essa “cenografia” tem, na verdade, um valor dramático. A atitude de Heleno/Rodrigo Santoro simboliza, de certa forma, como o filme engole as referências documentais para dentro de seu organismo ficcional e as transforma num ensaio poético.



O Rio de Janeiro que está no filme é um Rio estilizado, quase uma projeção da megalomania e do hedonismo do personagem. Nesse sentido, lembra a Little Italy de Jake La Motta no Touro Indomável de Scorsese. Intuo no filme uma vasta e bem assimilada influência de Raging Bull, seja na composição do personagem fascinante e auto-destrutivo, seja na estética primorosa que une a fotografia preto e branco de Walter Carvalho à montagem cortante de Sergio Mekler; o uso dos corpos, dos closes, do slow motion, das brumas expressionistas.



Na sessão em que vi, no Espaço Itaú de Cinema, o público aplaudiu ao final. Ouvi, porém, alguém reclamar que o filme não exprime o lado glorioso do craque. Tem toda razão. Estamos a milênios do filme para torcedor ou para a posteridade deste ou daquele clube. Com sua estranha atmosfera fronteiriça entre a euforia e a depressão, a beleza e a abjeção, a vida e a morte, enfim, Heleno é, isso sim, um filme sobre um fantasma ainda vivo, patético e desesperado. O futebol é somente a circunstância.

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