Críticas


SONHOS EM MOVIMENTO

De: ANNE LINSEL E RAINER HOFFMANN
28.04.2012
Por Carlos Alberto Mattos
OS MENINOS DE PINA

Liliam Hargreaves, a superdivulgadora do Grupo Estação, foi quem me deu o toque: enquanto os bailarinos de Pina/Wenders estão de corpos e almas completamente inebriados pela coreógrafa, os meninos e meninas de Sonhos em Movimento não têm muita ideia do que representa Pina Bausch. Um deles chega a dizer que nunca tinha ouvido falar dela antes de chegar ao Tanztheatre Wuppertal para ensaiar Kontakthof, obra de referência no repertório piniano.



O filme de Anne Linsel e Rainer Hoffmann acompanha o processo desse grupo de adolescentes amadores que topa o desafio de fazer o Kontakthof. No fundo, não deixa de ser aquela fórmula do documentário que segue uma seleção e a montagem de um espetáculo. Tem a garota desacreditada que acaba disputando o papel principal, tem os meninos falando de suas (in)experiências com o amor, as histórias de família que trazem para os personagens etc. Mas sem experimentalismos à la Moscou.



Descobrir e compreender o método de Pina funciona, para muitos desses garotos, como uma descoberta do mundo e do próprio corpo. Afinal, Kontakthof (que significa “ponto de encontro”) é justamente uma peça sobre as relações humanas ligadas ao corpo – vaidade, cortejo, assédio, dependência, contatos destrutivos.



Sonhos em Movimento é um ótimo complemento para o magistral Pina, já que mostra a árdua construção desse misto de dramaticidade e ludicidade, controle dos músculos e entrega radical. Pina Bausch aparece avaliando os alunos, reagindo às provas, etc. Ela era mesmo uma figura quase mítica, que despertava fascínio e medo nos jovens aspirantes, mas também era capaz de fazê-los perceber uma outra dimensão do corpo e das suas capacidades de usá-lo, para a arte e para a vida.



No filme de Wenders, esse mesmo grupo aparece rapidamente numa sequência de Kontakthof, alternado com outros grupos de idade adulta e de idosos. Àquela altura, provavelmente, a garotada já estava tão inebriada quanto qualquer veterano de Wuppertal.

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