Críticas


MINHA FELICIDADE

De: SERGEI LOZNITSA
Com: VICTOR NEMETS, OLGA SHUVALOVA, VLADIMIR GOLOVIN
05.05.2012
Por Marcelo Janot
PANCADA QUE ATORDOA

Há um simbolismo forte que perpassa todo o filme “Minha felicidade”. Desde o prólogo, que mostra o corpo de um homem sendo jogado num tanque de cimento fresco, até o plano final, em que um personagem se arrasta pela escuridão como um cadáver ambulante, sem voz e com uma arma na mão, o diretor Sergei Loznitsa flerta com o passado para nos oferecer um retrato desolador da Rússia do presente.



A trama segue a via-crúcis do caminhoneiro Georgy (Viktor Nemets ) pelo interior do país, mostrando o quão tênue é o limite entre o contemporâneo e o antigo nesse universo de policiais corruptos, prostituição infantil, milícias, falta de gentileza, estradas que não levam a lugar algum e, sobretudo, violência. Muita violência.



Dois flashbacks ambientados durante a guerra são sintomáticos da herança militar stalinista: num deles, um tenente regressando à URSS após a ocupação de Berlim tem os pertences roubados por um superior; noutro, um professor viúvo acolhe dois soldados famintos e é penalizado após expressar suas ideias pacifistas. Cenas tão chocantes quanto as do resto do filme, registradas de forma ao mesmo tempo crua e bela pelo talentoso diretor de fotografia romeno Oleg Mutu, numa narrativa ficcional envolvente, mas com forte influência do trabalho de Sergei Loznitsa como documentarista.



Uma pancada na cabeça é o elemento que marca a separação entre os dois atos do filme e faz a transição definitiva entre verão e inverno, luz e trevas. O golpe que atinge o personagem também desatordoa o espectador. Este é o único que pode usufruir, sem ironias, da felicidade a que se refere o título, por ter a chance de assistir a um dos filmes mais impactantes dos últimos anos.



# MINHA FELICIDADE (Schastye moe)

Alemanha, 2010

Direção e Roteiro: SERGEI LOZNITSA

Elenco: VICTOR NEMETS, OLGA SHUVALOVA, VLADIMIR GOLOVIN

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