Críticas


ROMANCE DE FORMAÇÃO

De: JULIA DE SIMONE
11.05.2012
Por Carlos Alberto Mattos
ELES FAZEM A COISA CERTA

Romance de Formação pode parecer, à primeira vista, um documentário careta sobre jovens aplicados em fazer o melhor possível de seus destinos. Eles são universitários brasileiros que se dispuseram a viver distantes da terra natal e dos entes queridos em troca de um futuro bem-sucedido. Um êxito que, se chegar, será fruto não de esperteza, golpes de sorte ou paternalismo social, mas da árdua aquisição de conhecimento e expertise.



Justamente porque esse tipo de abordagem é tão rara no doc brasileiro, o filme de Julia De Simone ganha foros de novidade. Há, sem dúvida, uma ideologia de empreendedorismo e meritocracia por trás do filme, algo que não é alheio ao pensamento do produtor Guilherme Coelho. E que também se alinha ao que José Joffily colheu em Prova de Artista, seu doc recém-lançado em DVD. Romance de Formação mostra um pouco do dia-a-dia de quatro jovens exemplares e, com ênfase maior, uma reflexão deles sobre si mesmos. Na Alemanha, um pianista que revê sua entrevista no Jô Soares enquanto ainda era menino-prodígio; em Stanford (EUA), uma aluna de Literatura com sobrenome Saramago que lê suas anotações privadas; em Harvard, um estudante de Direito Internacional às voltas com sua webcam; no Rio, um rapaz mineiro que estuda Medicina para salvar o pai de um câncer no pulmão e, se possível, ajudar a África.



Julia De Simone procura engajar cada personagem num esboço de autonarrativa, assim fazendo com que o filme repercuta internamente a autonomia que eles buscam para si. Enquanto isso, a maneira de filmá-los aponta para um sentido de equilíbrio e autodeterminação. As imagens são limpas, as cenas são sempre muito bem iluminadas. A câmera está geralmente estabilizada em planos fixos com os personagens quase sempre no centro do quadro, o que passa uma ideia de gente com razoável controle de suas vidas e empenhada em fazer a coisa certa.



A sensação de conseguimento que perpassa o filme até a apoteótica sequência final não deixa dúvidas: é um elogio do crescimento individual pelo esforço, a aplicação e uma certa dose de renúncia. Em meio a tanta valorização do improviso e do descompromisso por aí, isso pode soar, em vez de careta, uma bela ousadia.



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