Críticas


SLOVENIAN GIRL

De: DAMJAN KOZOLE
Com: NINA IVANISIN, PETER MUSEVSKI
10.06.2012
Por Daniel Schenker
VIDA ARRISCADA E SOLITÁRIA

A vida não é fácil para Alexandra (interpretada com vigor pela atriz Nina Ivanisin, que vem colhendo prêmios em festivais), estudante que, para garantir o sustento em Ljubljana (capital da Eslovênia), trabalha como prostituta. Uma profissão que a leva a correr riscos nada desprezíveis, a exemplo da via-crúcis que atravessa nas mãos dos cruéis cafetões Mile (Dejan Spasic) e Peter (Aljosa Kovacic). Ameaçada por eles, não toma as devidas precauções – o que soa algo inverossímil.



Seja como for, entre um cigarro e outro, Alexandra aprende a tirar vantagens de situações adversas ao se posicionar como pedinte diante do mundo – pede ao professor para ser aprovada, dinheiro à mãe e empréstimo para manter o apartamento. Não hesita em mentir para obter o que precisa. Nem sempre consegue.



Damjan Kozole, diretor de Slovenian Girl , traz à tona questões importantes – o fascínio pela morte, o medo diante das próprias atitudes, a opção por permanecer vivo apenas para poupar o sofrimento de quem está próximo. No roteiro (assinado por Kozole juntamente com Matevz Lunar e Ognjen Svilicic), esses pontos surgem reunidos numa sequência circunstancial, desvinculada da jornada da protagonista. É o momento, porém, em que o público consegue detectar o foco ambicionado pelo cineasta.



Ao longo da projeção, Alexandra ganha corpo como personagem. A solidão e certo conflito de identidade (como garota de programa adota o pseudônimo de Slovenian Girl, que, não por acaso, intitula o filme) reverberam nela com contundência. Mergulhada em cotidiano marcado por sexo mecânico com os clientes, externa um grande desapontamento diante da vida.



Alexandra mantém poucos vínculos afetivos, praticamente resumidos à cumplicidade com uma amiga, Vesna (Marusa Kink), e com o pai, Edo (Peter Musevski), que encontra em constantes visitas à pequena cidade de Krsko. O interior do país desponta como ambiente mais acolhedor do que a cidade grande, vista como espaço impessoal onde cada um interfere menos na vida do outro. Na capital também há reduzido interesse genuíno norteando os relacionamentos. Vencedor do prêmio de melhor filme da Academia Europeia de Cinema, Slovenian Girl desembarca com atraso no Brasil (foi realizada em 2009) e merece a visita do espectador.



Crítica publicada no jornal O Globo em 1/6/2012

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