Críticas


FAUSTO

De: ALEKSANDR SOKUROV
Com: JOHANNES ZEILER, ANTON ADASINSKY, ISOLDA DYCHAUK
13.07.2012
Por Marcelo Janot
VENDA SUA ALMA A SOKUROV

Há diversas maneiras de se adentrar uma obra densa como “Fausto”, do diretor russo Aleksandr Sokurov, vencedor do Leão de Ouro em Veneza no ano passado. Pode-se enxergá-lo como mais uma versão da lenda do médico que faz um pacto com o diabo, e ao compará-lo a obras de ficção célebres como o “Fausto” de Goethe ou o filme homônimo de Murnau, tentar entender por que é o dinheiro que estabelece a ligação entre Fausto e o Mefistófeles encarnado em dono de loja de penhores. O Fausto de Sokurov é um obsessivo que quer a todo custo descobrir em que parte do corpo se esconde a alma, mas antes precisa matar a fome. O estudo e o conhecimento não enchem barriga e o dinheiro lhe é negado pelo próprio pai. Resta recorrer aos préstimos de Mauricius Muller, o demo, que tem entre seus clientes de padres a artistas. Ao que parece, uma sutil referência do diretor russo à ordem capitalista do mundo contemporâneo.



Pode-se tentar decifrá-lo a partir da informação, fornecida no início dos créditos finais, de que o filme encerra uma tetralogia do diretor, iniciada com “Moloch”, “Taurus” e “O Sol”, que mostravam a fraqueza humana e a decadência moral de Hitler, Lênin e Hiroíto, respectivamente. Até que ponto o infeliz Dr. Fausto de Sokurov teria deixado o caminho aberto para o surgimento destes tiranos obcecados pelo poder? Os retratos dos três ícones feito por Sokurov é devastador. Hitler, na intimidade do convívio com Eva Braun e seus assessores de “férias” num castelo da Bavária em meio à guerra, é quase um bobo-alegre, distante da postura de estadista que o mundo conheceu. Lênin, pouco antes de sua morte, fisicamente debilitado, é apenas uma figura decorativa frente ao poder de Stalin. Já Hiroíto, às vésperas da rendição japonesa, se admite como um líder fracassado, desfazendo a imagem de divindade a que lhe era atribuída por seu povo. Aparentemente há poucos elementos ligando Fausto aos três homens poderosos, mas a cena final do filme deixa pistas para o que seria, na verdade, um prólogo em relação aos outros três.



Divagações à parte, pode-se também simplesmente se deixar levar pela viagem estética que o diretor nos proporciona através dos ares um tanto medievais de uma Alemanha do século 18, filtrada pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (de “Amelie Poulain” e “Harry Potter e o Enigma do Principe”). Nesse aspecto, “Fausto” tem pouco parentesco com os demais filmes da tetralogia. No lugar dos planos longos e contemplativos, como na antológica abertura de “Moloch” que mostrava Eva Braun dançando nua na varanda em meio ao fog da Bavária, a edição em “Fausto” é agil, a câmera vem na mão circulando entre os personagens boa parte do tempo, e as ações se sucedem em ritmo alucinante para os padrões sokurovianos.



A opção monocromática por um verde quase cadavérico em “Taurus”, que refletia o estado de espírito do personagem de Lênin, também é deixado de lado. Fausto, apesar de infeliz como os demais tiranos e ter à mão um vidro de cicuta pensando na hipótese de se matar, se reconcilia com a vida ganhando nova motivação a partir de seu encontro com a bela Margarete, guiado por Muller. Com um grau de experimentação pouco visto no cinema contemporâneo, o trabalho de Bruno Delbonnel com as cores é riquíssimo e faz mais do que remeter aos pintores flamengos do Renascimento. Há cenas em que temos uma variação de matizes e tonalidades dentro do mesmo plano. A brancura que ele obtêm em uma sequência na igreja, que em seguida ganha tons de azul, é de uma expressividade que desafia os padrões alcançados por Dreyer em seus filmes. Em uma cena crucial envolvendo Fausto e sua amada Margarete, a câmera se fixa em close nos rostos que se distorcem suavemente, ao som da respiração de ambos, e o semblante angelical da jovem rompe os limites da tela, numa epifania que transmite mais sensações do que mil palavras.



Assim como Fausto inicia o filme de cara com um pênis de um cadáver apodrecendo e só após uma longa trajetória de negociações com o diabo é recompensado pela visão de uma vulva imaculada, Sokurov também exige do espectador uma boa dose de disponibilidade para vender sua alma a esse diretor dos infernos, no bom sentido. A recompensa pode não ser a mesma obtida pelo personagem, mas para quem aprecia o trabalho de Sokurov, “Fausto” nos toca a alma sem a necessidade de revelá-la.

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