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RELEITURA DO PESADELO

31.03.2003
Por Luciano Trigo
RELEITURA DO PESADELO

Nascido em 1933 na Cracóvia, o polonês Roman Polanski passou boa parte de sua infância no gueto judeu, durante a Segunda Guerra. Viu soldados nazistas enviarem sua mãe para o campo de concentração de Auschwitz, viu seu pai ser deportado. Passou por privações as mais diversas, viveu escondido nas casas dos camponeses e aprendeu a escapar da morte como um exercício diário. Mas foram necessárias quatro décadas de cinema – sua estréia em longa-metragem foi em 1962, com Faca na Água – para que o polêmico e consagrado diretor decidisse levar à tela o Holocausto, através da adaptação das memórias do pianista Wladislaw Szpilman, que morreu em 2000, aos 88 anos.



Depois de O Pianista ganhar a Palma de Ouro em Cannes, entre outros prêmios, o esforço do cineasta foi recompensado mais uma vez semana passada com três importantes Oscar, incluindo o de melhor diretor, impensável até pouco tempo atrás. E a recompensa veio na hora certa: aos 69 anos, dificilmente Polanski voltará a se envolver em outro projeto tão ambicioso. Provavelmente foi por isso mesmo que ele investiu uma boa dose de energia acompanhando o lançamento de O Pianista em diversos festivais e mostras ao longo do mundo, incluindo o Rio de Janeiro e Havana, em dezembro passado – onde concedeu uma esclarecedora entrevista coletiva.



“Acho que hoje existe um grande número de jovens interessados em saber o que aconteceu no Holocausto” – declarou. “E, como eu estou envelhecendo, pensei que esta poderia ser a minha última oportunidade de fazer um grande filme de época sobre o tema. Eu sempre quis dirigir um filme assim, mas precisava esperar ficar maduro, para ganhar uma perspectiva maior em relação àqueles acontecimentos. Quando li as memórias de Szpilman, soube imediatamente que tinha encontrado o material certo”.



Embora a comparação com A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, tenha sido freqüente nos festivais, é necessário reconhecer que o filme de Polanski evita convenções e clichês presentes nas grandes produções americanas sobre o tema. Apesar de ser o retrato duro de um pesadelo, é como se o espectador visse o horror através da fresta de um esconderijo ou por um buraco de fechadura, o que remete a uma “estética da dissimulação” presente em diferentes filmes do diretor.



Em lugar de chocar a platéia com um relato apelativo do extermínio em massa ou com a exibição de cadáveres ambulantes, Polanski preferiu se ater a detalhes do dia-a-dia, mostrando o horror e o absurdo da perseguição aos judeus da forma como eles eram vividos cotidianamente, por um indivíduo, o que tem efeitos curiosos. Por exemplo, quem não gosta do filme costuma criticar a escolha de um personagem à primeira vista tão passivo, leia-se tão distante do herói hollywoodiano. Mas a aparente passividade dos judeus diante do cerco crescente do Mal é justamente uma das questões vitais para se entender o Holocausto, e foco de um debate que já rendeu centenas de livros – como O Coração Informado, de Bruno Bettelheim, outra vítima dos campos de concentração.



Na maior parte do filme, Polanski evitou transpor diretamente suas próprias experiências para a tela: prefeiru usar as memórias de Szpilman para dirigir um filme catártico, que de certa forma representa um acerto de contas pessoal com aquele pesadelo da História: “Eu não quis fazer um filme autobiográfico, mas é claro que o fato de ter testemunhado episódios do Holocausto me ajudou muito na reconstituição do período. Eu sabia tudo de primeira mão, não precisei recorrer a intermediários. Mas existem diferenças claras: eu era uma criança, e Szpilman já era um pianista famoso. E o gueto de Varsóvia, onde ele viveu, era muito maior que o de Cracóvia”.



Polanski faz o espectador compartilhar com o protagonista a pressão esmagadora de experiências que esmagam a sua identidade e reduzem todos os seus sentimentos ao impulso primário de sobrevivência – mas revelam, ao mesmo tempo, a imensa capacidade de superação do ser humano. O Pianista evita, portanto, as armadilhas do sentimentalismo e do maniqueísmo: nem todos os alemães são monstros, nem todos os judeus são bonzinhos. Nesse sentido, longe de reforçar e renovar o ódio e o desejo de vingança – sentimentos que justificam todas as guerras, inclusive a atual – O Pianista prega a tolerância. Sua mensagem é de perdão e esperança no futuro, e também de redenção através da arte, ilustrada pela seqüência em que Szpilman toca para o oficial nazista, que acaba salvando sua vida: a música promove a comunhão espiritual e abolição das diferenças e dos preconceitos entre os homens, mesmo os mais arraigados.



Embora seja bastante fiel ao livro de Szpilman, Polanski recorreu também às próprias lembranças da infância no gueto, como na cena em que o pai do pianista é esbofeteado na rua por um soldado nazista, ou naquela em que uma jovem é assassinada apenas por fazer uma pergunta. “A pior violência para uma criança é ver seus pais serem humilhados. Para mim, mais duro que sofrer com o frio, a fome e o medo, foi ter que me separar dos meus pais. Mas eu jamais faria um filme sobre minha própria vida, porque não gosto de lavar minha roupa suja em público”.



Declaração compreensível, já que a vida de Polanski daria um filme bastante movimentado, bastando citar dois episódios traumáticos – aos quais o cineasta dedica poucas linhas em seu livro de memórias, “Roman”. Primeiro, o bárbaro assassinato, em 1969, de sua mulher, a atriz Sharon Tate (de A Dança dos Vampiros), pela seita do fanático Charles Manson; segundo, a acusação de ter seduzido, em 1977, uma menina de 13 anos, após uma festinha na casa do ator Jack Nicholson – o risco de prisão fez Polanski fugir dos Estados Unidos, e até hoje ele se vê impedido de voltar a pisar em território americano. Nada disso impediu que ele desse prosseguimento a uma carreira brilhante.



O Pianista proporcionou a Polanski a oportunidade de voltar a filmar na Polônia natal, depois de quase 40 anos, o que produziu uma experiência de estranhamento em alguém que cresceu um regime comunista: “Quando voltei à Polônia pela primeira vez, depois da queda do comunismo, demorei a me acostumar com a idéia de que podia conversar livremente sobre qualquer assunto, na rua”.



O diretor concluiu a coletiva defendendo outro filme não-convencional sobre o Holocausto, A Vida é Bela, de Roberto Begnini: “Eu amo este filme. É uma atitude muito corajosa dirigir uma comédia sobre esse tema. Mas, se pensarmos bem, existe mesmo algo de quase cômico no projeto nazista de exterminar um povo inteiro. É algo tão absurdo que seria engraçado, se não fosse trágico”.



Polanski vive atualmente em Paris com sua mulher, a atriz Emanuelle Seigner (estrela de seus filmes Busca Frenética e Lua de Fel) e os dois filhos do casal. Em relação a projetos futuros, o cineasta guarda na gaveta um roteiro baseado no romance “O Mestre e Margarida”, do dissidente russo Mikhail Bulgákov. O projeto já foi rejeitado por executivos de grandes produtoras, para frustração de Polanski, mas o Oscar pode mudar tudo. “Hoje só o que interessa às produtoras é fazer dinheiro em larga escala. Os grandes estúdios não ficam mais satisfeitos se um filme ganha prêmios mas não é um êxito comercial. Sinto saudade do tempo em que me davam total liberdade financeira para dirigir filmes como O Inquilino, O Bebê de Rosemary ou Chinatown”.

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