Críticas


AMOUR

De: MICHAEL HANEKE
Com: EMMANUELLE RIVA, JEAN-LOUIS TRINTIGNANT, ISABELLE HUPERT
29.01.2013
Por Ricardo Cota
Sonata da finitude

Não os chamem de idosos! O casal de Amour, obra-prima de Michael Haneke, é composto por um homem e uma mulher que se se amam, independente dos cabelos brancos, dos corpos flácidos e da memória claudicante. E o amor profundo não perde jamais a vitalidade. Nem diante da iminência da morte.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emanuelle Riva) são dois octogenários que vivem uma rotina espartana. Eméritos professores de música, dividem-se entre o cotidiano no austero e confortável apartamento parisiense e as idas a concertos clássicos dos pupilos de outrora. Tout va bien até a manhã em que o sensibilíssimo Georges percebe durante o costumeiro café da manhã sinais de demência no comportamento da esposa.

A partir daí, Amour segue com intensidade a entrega amorosa de Georges na companhia dos últimos dias de sua amada. Sem apelos fáceis, com um realismo de forçosa empatia (afinal quem já não passou, ou passará, por isso?), Haneke filma o passo a passo de um processo doloroso, em que o amor de Georges é posto à prova a cada apagão, a cada golfada, a cada grito da intraduzível dor de Anne.

Michael Haneke, em seu melhor filme, não cede a apelos sentimentalóides. O calvário de Annes pavimenta-se sem perfumarias. Será ela alvo de um tapa de Georges quando se recusa a beber água, da impaciência das prepotentes enfermeiras (a cena do banho é Haneke em estado puro: duro e seco) e da aflição da filha impotente (Isabelle Hupert, sempre Isabelle Hupert), que questiona o pai sobre a insistência de não levar a mãe para o hospital.

Nas entrelinhas do drama terminal, Amour esparge cinzas de esperança no carinho pela vida vivida, sem nostalgia barata. Ao ver fotos antigas, Anne não se exime de observar, para um perplexo Georges, que “a vida é boa”. O pas-de-deux casual de Georges com um pombo intrujão no corredor do apartamento sintetiza o quão angustiante pode ser uma manifestação pura da natureza num ambiente cercado pelo bafo da finitude.

Amour lembra-nos que a nossa morte é apenas uma dentre tantas que nos cercam. Em sua grande sequência, que vai gerar debates mundo afora, o protagonista acalma a amada num momento de muita dor. Conta-lhe uma história sobre a reação de sua mãe quando soube que o filho estava com difteria. Fala do medo, da solidão e da esperança pelo afeto. Corta o coração e arranca lágrimas até o desfecho hanekiano inesperado, sem concessões à correção de dramaturgia.

Com dois grandes atores, candidatíssimos à Palma de Ouro, poucos cenários e o auxílio luxuoso de Huppert, Haneke realiza o seu melhor filme, com total controle do tempo cinematográfico e existencial. Como ganhou há pouco, em 2009, a Palma de Ouro de Melhor Filme por A Fita Branca, e a de Melhor Diretor por Caché, de 2005, pode não levar o prêmio maior. Se ocorrer, vai ter protesto. Na sessão de gala, Amourrecebeu 20 minutos de aplausos. Merecidos.



Texto publicado originalmente durante o Festival de Cannes 2012

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