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O CINEMA PERDE GREGORY PECK

13.06.2003
Por Fernando Albagli
O CINEMA PERDE GREGORY PECK

Eldred Gregory Peck nasceu em La Jolla, Califórnia, no dia 5 de abril de 1916. Seu pai era um farmacêutico, em San Diego, e divorciou-se de sua mãe, quando ele tinha apenas cinco anos. Uma de suas mais antigas lembranças era a da avó que o criou levando-o ao cinema, o que ela fazia todas as semanas. E do medo que teve quando viu O Fantasma da Ópera (Phantom of the Opera), em 1925, com Lon Chaney. Em Berkeley, pretendeu fazer Medicina, até se interessar pela carreira de ator. Estudou arte dramática em Nova York e fez uma boa estréia na Broadway, na peça de Emlyn Williams The Morning Star, em 1942.



Como muitos dos atores principais de Hollywood estavam servindo nas forças armadas e ele tinha sido recusado por causa de um problema de coluna, foi fácil começar no cinema, fazendo logo o principal personagem masculino em Quando a Neve Tornar a Cair (Days of Glory),1944, propaganda de guerra dirigida por Jacques Tourneur, com Tamara Toumanova, em que ele representa um partisan russo lutando contra os nazistas. E, no ano seguinte, já estrelava As Chaves do Reino (The Keys of the Kingdom), de John M. Stahl, pelo qual foi indicado pela primeira vez ao Oscar, vivendo um padre escocês na China do Século XIX.



Nesse mesmo ano, ainda fez Quando Fala o Coração (Spellbound), de Alfred Hitchcock, como vítima de amnésia acusado de assassinato, ao lado de Ingrid Bergman, um dos indicados para Melhor do Ano, e O Vale da Decisão (The Valley of Decision), de Tay Garnett, ao lado de Greer Garson. Em 1946, veio a segunda indicação, dessa vez como o fazendeiro cujo filho protege um veadinho perdido na floresta, em Virtude Selvagem (The Yearling), que também foi um dos indicados para Melhor Filme. Ainda em 1946, em Duelo ao Sol (Duel in the Sun), um forte western de King Vidor, mas com grande influência do produtor Selznick, que queria repetir o sucesso de ...E o Vento Levou, Peck faz o irmão de Joseph Cotten. mas as figuras maiores são vividas por Jennifer Jones, Lionel Barrymore e Lillian Gish.



No ano seguinte, mais um filme importante (ganhou o Oscar de Melhor Filme e ele outra indicação para Melhor Ator): A Luz é para Todos (Gentleman´s Agreement), em que Peck interpreta um jornalista que se faz passar por judeu, para escrever sobre anti-semitismo. Ainda em 1947, estrelou Covardia (The Macomber Affair), que o crítico James Agee considerou o melhor filme baseado em texto de Hemingway, até então. Em 1948, mais um Hitchcock – Agonia de Amor (The Paradine Case) – e outro western de categoria – Céu Amarelo (Yellow Sky), de William Wellman.



Com uma dezena de filmes, Gregory Peck já tinha firmado sua personalidade cinematográfica – ele irradiava integridade e nobreza, apesar de não ser muito vibrante. Vários de seus melhores desempenhos se devem a personagens que se encontram em situações críticas, forçados a agir por influências externas ou contra suas convicções. Assim foi em Almas em Chamas (Twelve O´Clock High),1949, quando tem que enviar seus comandados a uma possível morte, em missões aéreas na Segunda Guerra Mundial. Esse filme foi o primeiro de alguns que fez com Henry King, diretor que acertava muito com seu estilo sério e elegante de representar.



Sucesso de bilheteria, deu origem a uma série de televisão e proporcionou a Peck outra indicação para o Oscar, que ele ainda não levou, dessa vez. E assim foi também em O Matador (The Gunfighter),1950, quando ele é forçado a matar os que o desafiam por causa de sua fama de grande pistoleiro; em A Profecia (The Omen),1976, em que ele se convence de que deve matar o próprio filho, que é a encarnação do demônio; em MacArthur, o General Rebelde (MacArthur),1977, quando desobedece ao Presidente, por causa de suas convicções, e perde o comando.



Peck ganhou finalmente seu Oscar em O Sol é para Todos (To Kill a Mockingbird),1962, de Robert Mulligan, fazendo um advogado sulista que defende um negro acusado injustamente de estuprar uma branca. Esse foi também seu filme de que mais gosta e o de estréia de Robert Duvall. Mas, antes, Gregory tinha feito Davi e Betsabá (David and Bathsheba),1951, As Neves de Kilimanjaro (The Snows of Kilimanjaro),1952, O Mundo em Seus Braços (The World in His Arms),1952, A Princesa e o Plebeu (Roman Holiday),1953, estréia de Audrey Hepburn nos Estados Unidos, A Sombra da Noite (Night People),1954, Loucuras de Milionário (The Million Pound Note. Nos Estados Unidos: Man With a Million),1954, O Homem do Terno Cinzento (The Man With the Gray Flannel Suit),1956, Moby Dick (Moby Dick),1956, Teu Nome é Mulher (Designing Woman),1957, Da Terra Nascem os Homens (The Big Country),1958, Estigma da Crueldade (The Bravados),1958, O Ídolo de Cristal (Beloved Infidel),1959, A Hora Final (On the Beach),1959, Os Canhões de Navarone (The Guns of Navarone),1961.



O nome de Gregory Peck estava no topo da lista dos maiores adversários do Presidente Richard Nixon. Por mais de 40 anos, ele tem sido o grande liberal do Cinema americano. Escreveu uma autobiografia intitulada An Actor´s Life, publicada em 1978. Foi casado duas vezes. Com Greta Rice, de 1942 a 1955, com quem teve três filhos. O mais velho, Jonathan, se suicidou em 1975. Stephen e Carey têm hoje, respectivamente, 58 e 54 anos. E com Veronique Passani, de 1955 em diante. Os dois filhos desse casamento – Anthony (n.1956) e Cecilia (n.1958) – são atores. De 1967 a 1970, foi Presidente da Academia. Ganhou o Prêmio Humanitário Jean Hersholt, em 1967. Foi homenageado pelo conjunto da obra, em 1989 pelo American Film Institute, em 1990 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, e, em 1991, pelo Centro John F. Kennedy e pela Film Society do Lincoln Center.



Em 1999, foi um dos principais lobistas pela eleição de Fernanda Montenegro para o Oscar de Melhor Atriz de 1998, em Central do Brasil. Ao ser apresentado ao nosso companheiro Marcelo Janot, durante um jantar no Festival de Chicago de 2000, disse que não se conformava de Fernanda ter perdido o Oscar "para aquela menina", referindo-se a Gwyneth Paltrow.



Outros de seus filmes: O Grande Pecador (The Great Sinner),1949, Resistência Heróica (Only the Valiant),1951, O Falcão dos Mares (Captain Horatio Hornblower),1951, Terra Ensangüentada (The Purple Plain),1954, Os Bravos Morrem de Pé (Pork Chop Hill),1959, Círculo do Medo (Cape Fear),1962, A Conquista do Oeste (How the West Was Won),1962, Pavilhão 7 (Captain Newman M.D.),1964, A Voz do Sangue (Behold a Pale Horse),1964, Miragem (Mirage),1965, Arabesque (Arabesque),1966, A Noite da Emboscada (The Stalking Moon),1969, A Grande Ameaça (The Chairman),1969, O Ouro de Mackenna (Mackenna´s Gold),1969, Sem Rumo no Espaço (Marooned),1969, O Pecado de um Xerife (I Walk the Line),1970, O Parceiro do Diabo (Shoot-Out),1971, Matando sem Compaixão (Billy Two Hats, relançado como The Lady and the Outlaw),1974, Os Meninos do Brasil (The Boys From Brazil),1978, pela primeira vez como vilão, fazendo o cientista nazista Josef Mengele, Espionagem em Goa (The Sea Wolves),1980, Saga de Valentes (The Blue and the Gray),1982, minissérie, o telefilme O Escarlate e o Negro (The Scarlet and the Black),1983, A Voz do Silêncio (Amazing Grace and Chuck),1987, Gringo Velho (Old Gringo),1989, Com o Dinheiro dos Outros (Other People´s Money),1991, Cabo do Medo (Cape Fear),1991, versão de Martin Scorsese, em que Nick Nolte e Robert de Niro fazem os papéis desempenhados por Peck e Robert Mitchum, na primeira versão, O Retrato (The Portrait),1993, para TV a cabo, o filme que marcou a volta do diretor Arthur Penn à televisão, sendo estrelado por Peck, sua filha Cecilia e Lauren Bacall, e do qual o ator foi também produtor executivo.



Em 1993, o diretor Martin Arnold realizou uma insólita experiência. Ele utilizou a cena de alguns segundos de O Sol é para Todos, com Peck e os meninos Phillip Alford e Mary Badham, na mesa do breakfast, desconstruindo-a na montagem, e repetindo-a várias vezes, de formas diferentes, até formar o curta-metragem experimental austríaco de 12 minutos Passage à l´acte. Em 1998, Gregory Peck fez seu último trabalho: Moby Dick, dirigido por Franc Roddam, com produção executiva de Francis Ford Coppola e outros. Peck, que na versão de John Huston, em 1956, tinha feito o protagonista, Capitão Ahab, nesse drama de obsessão e vingança adaptado do célebre romance de Herman Melville, nesta versão para a televisão fez o Papai Mapple, um pequeno papel de despedida.



Sua morte foi anunciada em Los Angeles nesta quinta-feira, dia 12 de junho de 2003. Segundo sua mulher Veronique, que estava ao seu lado, "ela estava segurando sua mão, ele fechou os olhos, dormiu e se foi".





(Texto inédito extraído da nova edição do livro TUDO SOBRE O OSCAR, de Fernando Albagli, a ser publicada ainda este ano)

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