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ABRAM CAMINHO PARA OS FORA DO EIXO

23.06.2003
Por Carlos Alberto Mattos
ABRAM CAMINHO PARA OS FORA DO EIXO

Desde que as novas leis de incentivo e a reconfiguração do setor propiciaram a chamada “retomada” do cinema brasileiro, em meados da década passada, iniciou-se um processo de descentralização da produção cinematográfica. A movimentação ainda é tímida, mas plenamente perceptível a quem tem olhos de ver. A jornalista Maria do Rosário Caetano, uma mineira radicada em São Paulo, coletou os seguintes dados: dos 200 títulos de longas-metragens produzidos entre 1994 e 2002, nada menos que 45 foram realizados fora do Rio e de São Paulo, os dois grandes e tradicionais centros de produção. Filmes foram feitos nas cinco regiões do país. Só no Ceará foram realizados nove longas. O Piauí está produzindo o seu primeiro (veja a lista completa no final do artigo).



Se considerarmos também os curtas-metragens, veremos que, dos 27 estados brasileiros, 20 estão representados na filmografia nacional do período 1994-2002. O curta revela a real pluralidade da cultura e do cinema brasileiro e foi o responsável por se voltar a filmar longas em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul etc. A maior parte desses filmes, contudo, permanece desconhecida do resto do Brasil. À regionalização da produção não tem correspondido uma descentralização da distribuição e da exibição. Ao mesmo tempo, essa produção “fora do eixo”, ao cair na rede generalizante da “diversidade”, tem deixado de ser analisada como expressão cultural de um país essencialmente multirregional.



Dos quatro cantos do país têm chegado não só filmes que ajudam a renovar a linguagem do cinema brasileiro contemporâneo (como é o caso dos pernambucanos e superpremiados Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, e Amarelo Manga, de Cláudio Assis; do cearense Sertão das Memórias, de José Araújo, ou do brasiliense Louco por Cinema, de André Luiz Oliveira), como também produções de considerável empatia com o público médio – pensemos no gaúcho Houve uma Vez Dois Verões, de Jorge Furtado, ou no mineiro O Menino Maluquinho, de Helvécio Ratton. Os grandes festivais consagraram nacionalmente títulos como o baiano Samba Riachão, de Jorge Alfredo, o cearense Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry, e o próprio Baile Perfumado.



Do ponto de vista do “eixo Rio-São Paulo”, existe uma grande tentação em ver esse cinema como vitrine de um “outro Brasil”, quando muito de “outros brasis”. Enfim, “um Brasil que nós não conhecemos”. O cineasta Geraldo Moraes (A Difícil Viagem, Círculo de Fogo, No Coração dos Deuses), gaúcho residente em Brasília, é um dos que reagem a esse tipo de expressão: “Lembro a piada do Zorro: ‘nós quem, cara pálida?’. Para falar em ‘outros brasis’, teríamos que definir ‘um Brasil’ que seria central. Para falar em ‘diferente’ é preciso saber em relação a quê”.



Moraes propõe uma pergunta provocadora: culturalmente marginal será o sertanejo que não tem tevê a cabo ou o urbanóide que nunca entrou num forró e não sabe onde é Caruaru? Qual deles vive à margem de quê? A discussão sobre um Brasil supostamente “diferente” envolve outra, igualmente complexa: o dito cinema regional teria uma identidade e uma gramática também diferentes?



“Não”, responde taxativamente Maria do Rosário Caetano. “O que há são desejos de contar histórias regionais, mostrar paisagens diferentes, apresentar novos profissionais, reafirmar que existem outros brasis”. Ela toma o exemplo do Rio Grande do Sul, onde se localizam duas correntes distintas: o cinema urbano da turma da Casa de Cinema de Porto Alegre e o “cinema de bombacha”, nativista, ligado às tradições gaúchas. “Este cinema causa urticária em Jorge Furtado”, afirma. O gaúcho Giba Assis Brasil tem opinião parecida: “O que há de comum entre Netto Perde sua Alma e Houve uma Vez Dois Verões?”, indaga. “A denominação ‘outros brasis’ me parece interessante até porque o cinema brasileiro é sempre ‘outro’. O que me interessa nesses filmes são as suas diferenças”, acrescenta.



Já o mineiro Rafael Conde vê, nos filmes fora do eixo, uma possível identidade e uma gramática especiais como forma de enfrentamento da marginalização frente ao mercado de produção e distribuição. Seu longa Samba Canção trata justamente desse tema: conta as agruras de um jovem cineasta mineiro que precisa trocar sucessivamente de suporte para baixar o orçamento e viabilizar o seu filme. “Dificilmente um projeto fora do eixo poderá contar com um orçamento superior a um milhão de reais, por exemplo. A não ser que se associe com um produtor paulista ou carioca”.



Também em Minas Gerais, o diretor José Sette de Barros (Um Filme 100% Brasileiro) está a meio caminho na produção do filme O Rei do Samba, sobre o compositor Geraldo Pereira. Ainda não conseguiu recursos para ampliar de Super 16 para 35mm. “Não tinha atores conhecidos, não obtive mais investimento. Aí talvez esteja a grande diferença entre o cinema brasileiro regional e os outros. Mas o Brasil é formado por diferentes brasis. É preciso entendê-los para depois comê-los. O cinema é uma arte antropofágica”, define Barros.



Em recente debate no Rio, Rafael Conde e os realizadores Leandro HBL e Conrado Almada, da produtora mineira Mosquito, admitiram que um certo sentimento de mineiridade acaba se refletindo nos filmes que fazem. “O desejo de explodir coisas aparece com freqüência num estado onde há tanto patrimônio para preservar, tantas tradições para defender”, exemplificou Conde. “Minas tem muito ímã. Daí a necessidade de de sair, a diáspora”, explica. É natural que características regionais gerem temáticas e tratamentos diferenciados no cinema. Outro mineiro, Paulo Augusto Gomes (Idolatrada), lembra que sempre foi assim: “Já nos tempos de Humberto Mauro, os filmes do ciclo de Cataguases mostravam ‘um outro Brasil’, em descompasso com as mansões milionárias e a gente esnobe que, segundo Adhemar Gonzaga, deveriam ser o centro de atração do nosso cinema”.



Paulo Caldas, um pernambucano que migrou para o “eixo” (“eu estou aqui, mas sou de lá”, ressalva), é um dos que enxergam uma linguagem diferente. “A experiência de vários cineastas pernambucanos tem sido a de ir ao encontro de uma linguagem brasileira voltada para a cultura popular, para o anti-herói do povo, inserido na contemporaneidade”, analisa. Seu novo projeto de ficção, Deserto Feliz, pretende retratar uma mudança radical de costumes no interior de Pernambuco e Bahia, onde a tecnologia e a comunicação geraram “um sertão mais irrigado, mais rico... e também mais miserável”. O cinema pernambucano, segundo Paulo Caldas, equilibra-se entre dois sentimentos conflitantes: o orgulho, um sentimento nobre que pode se transformar em cegueira; e o que ele chama de “complexo de Macabéa” (a personagem de A Hora da Estrela), pelo qual o nordestino se perceberia como “atrasado” e, por isso, incapaz de se destacar. Por esse raciocínio, só o sucesso no “eixo” o legitimaria. Caldas é ainda mais crítico quando diz: “Parece que só no Rio se faz cinema brasileiro. Até em São Paulo, o cinema é paulista...”.



O crítico pernambucano Kleber Mendonça Filho aponta o sucesso do manguebeat e do filme Baile Perfumado, nos anos 1990, como marcos da reciclagem por que passou o clichê cultural ligado a Recife. “Os realizadores viram-se em situação mais confortável de poder filmar a cidade, sem necessariamente ter de ambientar idéias no sertão ou no agreste”. Ele sofreu o preconceito na própria pele ao exibir em Fortaleza seu média-metragem Enjaulado, que se passa dentro de um apartamento de classe média de Recife. Ouviu que filmar história urbana seria “coisa pra paulista” e que ele, como nordestino, deveria se ater à cultura popular do interior.



Quando fala de cinema regional, a diretora Betse de Paula, carioca radicada em Brasília, quer falar de “filmes de baixo orçamento, feitos na cidade onde o diretor e equipe moram, que mostram as cidades por dentro, criticamente”. Ela oferece mais esta definição: “uma reforma agrária audiovisual”, que teria sido reforçada pelos editais de curta-metragem e de filmes de baixo orçamento (os chamados B.O.) do Ministério da Cultura. Seu longa mais recente, a comédia Celeste & Estrela, é um típico B.O. que tematiza os bastidores da produção de cinema no Brasil.



O fato de estar à margem das imposições comerciais do Rio e de São Paulo garantiria maior independência ou maior criatividade aos filmes fora do eixo? Geraldo Moraes não concorda: “Independência e criatividade são questões de foro íntimo e caracterizam realizadores de todas as regiões”. Ele se diz emocionado ao ministrar oficinas de roteiro e direção em vários estados, quando se depara com uma “multidão de gente nova, do ‘eixo’ e de fora dele, que está transformando o audiovisual na grande expressão pessoal e coletiva dessa geração, como a poesia foi para outras”.



O diretor de fotografia Walter Carvalho, alguém que transita confortavelmente entre o “eixo” e o “fora do eixo”, não faz correlações entre criação e geografia. Amarelo Manga e Madame Satã, por exemplo, lhe parecem assemelhados em matéria de postura criativa. “Do ponto de vista da produção, pode ser mais cômodo filmar no Rio ou em São Paulo. Entre outras coisas, o fotógrafo está mais próximo do laboratório. Mas em termos de estética, meu único compromisso é com o discurso cinematográfico do diretor”, esteja ele em Aracaju, no Rio ou no Japão”, garante.



Ninguém assinaria embaixo de uma separação tosca entre cinema regional de invenção e cinema “central” de acomodação. Mas há quem aponte razões profundas de uma certa diferença. “No Rio e em São Paulo, existe a formação universitária e profissional, há o contato com realizadores consagrados. Isso leva a um cinema mais comprometido com o modelo industrial”, distingue Paulo Caldas. E compara: “no Nordeste a gente não tem escola, não tem dinheiro, não tem nada. A gente faz independente de tudo. Há carência também de cobrança, daí uma liberdade maior”. Mas Caldas vê o cinema regional aos poucos se colocando dentro da “máquina” do tal modelo industrial. “A máquina é uma ameaça. Com ela vêm certos modelos de censura”, alerta.



Estaria, então, o fantasma da padronização rondando o emergente cinema “fora do eixo”? Será que, por uma força centrípeta, o cinema produzido no Norte, Sul e Centro-Oeste do país poderia ficar cada vez mais parecido com o carioca ou o paulista, na busca de viabilização comercial e reconhecimento nacional? Giba Assis Brasil tem lá suas dúvidas: “Pensando bem, o que está realmente comprometido com ‘esquemas comerciais’ no cinema brasileiro?”, questiona. E logo trata de responder: “Uma das possíveis vantagens de se ter um cinema subdesenvolvido é que não há um modelo hegemônico, porque não há um formato de produção comercialmente eficiente. Não que não busquemos isso, mas ainda estamos longe de atingi-lo”. A esse respeito, Betse de Paula prefere fazer mira um pouco mais longe, mais especificamente em Hollywood. “A gente sofre a hegemonia de fora. A concorrência é desleal com o cinema brasileiro e, particularmente, com o produzido fora do eixo”.



Discussões à parte, ninguém põe em dúvida a importância da descentralização para o desenvolvimento do cinema brasileiro. “O cinema ‘fora do eixo’ é necessário por questões de respeito à diversidade, sem as quais restaria apenas a lógica do mercado, que não justificaria sequer o cinema feito no Rio ou em São Paulo”, argumenta Giba Assis Brasil. Rafael Conde vê na regionalização a única arma para “fazer frente à massificação do olhar hegemônico da televisão brasileira”. Para Walter Carvalho, quanto mais concentrado no “eixo”, mais o cinema tende a ficar “esquizofrênico”.



“Um país não pode viver agarrado ao litoral, quando tem um ‘interiorzão’ gigantesco, assim como não pode viver só de dois estados, quando conta com 27 unidades federativas. Isto é sucídio”, ralha Maria do Rosário Caetano. Devotada militante da descentralização, Rosário está buscando recursos, junto com Marcelo Janot, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, para a mostra itinerante Muitos Brasis, que pretende levar a 15 capitais brasileiras (inclusive Rio e São Paulo) um atraente pacote de 14 longas e 28 curtas produzido fora do “eixo”. “Se o governo Lula não enxergar todos os brasis – sendo o presidente um pernambucano que passou por Santos e fixou-se no ABC paulista – quem enxergará?”, alarma-se.



Geraldo Moraes faz eco a esse tipo de esperança: “Se o governo atual não permitir que o cinema brasileiro seja sufocado mais uma vez, o novíssimo cinema que está sendo gerado pelo país afora vai despontar de todos os lados”. Betse de Paula chama atenção para a necessidade de se descentralizar não só a produção, mas também a distribuição. Ela pede a democratização do acesso às salas de cinema. “É necessário voltar aos cinemas populares e do interior, fora dos shoppings, ocupar espaço nas televisões”, enumera.



Quando se trata de mandar mensagens ao Planalto Central, não faltam propostas concretas. Como a de José Sette de Barros: “Vamos criar nas pequenas cidades dos milhares de municípios desse nosso Brasil os ‘Centros de Estudos Culturais’, um prédio público onde se possa ter uma sala de cinema digital, um palco, uma biblioteca, uma videoteca, uma loja de artesanato e acesso à internet gratuito. Pode ter certeza de que, com isso, se fará uma revolução social nesse país”. No mesmo sentido, Kleber Mendonça Filho torce para que a Secretartia do Audiovisual do Ministério da Cultura ponha em prática a intenção anunciada de estabelecer ilhas de produção regionais. Mais do que levantar a bandeira da regionalização, Paulo Caldas advoga a causa da “nacionalização da produção”. Traduzindo: a defesa estratégica do cinema brasileiro como um todo. “É preciso que se faça cinema no Brasil todo e que esse cinema possa ser mostrado no Brasil todo”, defende.



Mudam as palavras, mas não muda o sentimento de que o cinema brasileiro fica muito mais pobre quando se resume à produção de dois estados. A riqueza humana e temática, as particulares dicções e sotaques, o ritmo da vida e o gosto estético das diferentes regiões do país devem ter acesso às câmeras. E principalmente às telas do país inteiro.



LISTA DE LONGAS POR ESTADO



(Compilação de Maria do Rosário Caetano)



DISTRITO FEDERAL

Conterrâneos Velhos de Guerra, Vladimir Carvalho (1993)

Louco por Cinema, André Luiz Oliveira (1996)

O Casamento de Louise, Betse de Paula (2001)

Atlântico Negro, Na Rota dos Orixás, Renato Barbieri (1998)

Barra 68, Vladimir Carvalho (2001)

Malagrida, Renato Barbieri (2001)

Celeste & Estrela, Betse de Paula (2003)

A Conspiração do Silêncio, Ronaldo Duque (2003)

As Vidas de Maria, Renato Barbieri (2003)

Em Verdade Vos Digo, André Luiz Oliveira (finalização)

Subterrâneos, José Eduardo Belmonte (finalização)



RIO GRANDE DO SUL

Anahy de las Misiones, Sérgio Silva

Lua de Outubro, Henrique Freitas Lima

Harmonia, de Jaime Lerner

Tolerância, de Carlos Gerbase

Houve Uma Vez Dois Verões, Jorge Furtado

O Homem Que Copiava, Jorge Furtado

Netto Perde Sua Alma, Beto Souza e Tabajara Ruas

A Festa de Margarette, Renato Falcão

Concerto Campestre, Henrique Freitas Lima (2003)

Noite de João, Sérgio Silva (finalização)



CEARÁ

A Saga do Guerreiro Alumioso, Rosemberg Cariry (1994)

Corisco & Dadá, Rosemberg Cariry (1997)

Sertão das Memórias, José Araújo (1997)

Iremos a Beirute, de Marcus Moura (1998)

Milagre em Juazeiro, Wolney Oliveira (2000)

Eu Não Conhecia Tururu, Florinda Bolkan (2001)

Juazeiro, a Nova Jerusalém, Rosemberg Cariry (2001)

Nas Escadarias do Palácio, Rosemberg Cariry (2003)

As Tentações de São Sebastião, José Araújo (2003) - em finalização





MINAS GERAIS

Menino Maluquinho, Helvécio Ratton (1996)

Amor & Cia, Helvécio Ratton (1999)

O Aleijadinho, Geraldo Santos Pereira (1999)

Círculo das Qualidades Humanas (Gomes, Veloso, Moreno & Alencar) (1999)

Uma Onda no Ar, Helvécio Ratton (2002)

Samba-Canção, Rafael Conde (2003)

Amor Perfeito, Geraldo Magalhães (em finalizaçao)



BAHIA

Eu Prometo, Edgard Navarro

Três Histórias da Bahia, Edyala, Araripe e Machado

Esses Moços, José Araripe Júnior

Samba Riachão, Jorge Alfredo



PERNAMBUCO

Baile Perfumado, Lírio Ferreira e Paulo Caldas (1997)

Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e Marcelo Luna (2000)

Amarelo Manga, Cláudio Assis (2003)



PARAÍBA

Por Trinta Dinheiros, de Vânia Perazzo e Ivan Lhebarov (em finalização)

O Senhor do Castelo, Marcus Villar (em finalizaçao)



SANTA CATARINA

Procuradas, de Zeca Pires & José Frazão (em finalização)

Vida e Obra de Seo Chico, de José Rafael Mamigonian ( em finalizaçao)



ESPÍRITO SANTO

O Amor Está no Ar, Amylton Almeida (1997)

A Morte da Mulata, de Manoel Cordeiro (2000)



PARANÁ

Onde os Poetas Morrem Primeiro, Irmãos Schumann (2000)



MATO GROSSO

A Oitava Cor do Arco-Iris, Amaury Tangará (2003)



PIAUÍ

Cipriano, Douglas Machado (2002)

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