Críticas


CORAÇÃO DO BRASIL

De: DANIEL SANTIAGO
19.04.2013
Por Carlos Alberto Mattos
Alguns dados potencialmente interessantes acabam submergindo na linearidade um tanto monótona da viagem.

A viagem dos velhos expedicionários



Navegar por diversos dias em pequenos barcos e caminhar 18 km numa picada no meio da floresta não é tarefa para qualquer viajante. Muito menos para um homem de 80 anos, andando de muletas. Mas foi isso o que Sérgio Vahia de Abreu se dispôs a fazer para reeditar uma aventura vivida 50 anos antes. Em 1958, ele participou da expedição dos irmãos Villas-Bôas que demarcou o centro geográfico do Brasil, em terras indígenas do Mato Grosso. Em 2008, patrocinou uma nova expedição, que incorporaria pelo caminho dois outros expedicionários de 1958, o documentarista inglês Adrian Cowell, falecido em 2011, e o cacique Raoni.

Esses três senhores e seus reencontros emocionados são a maior graça e riqueza de Coração do Brasil, o filme dirigido por Daniel Solá Santiago. A expedição é narrada através de muitos mapas, muitas informações históricas difíceis de assimilar completamente e uma narração que se alterna entre os relatos das viagens de 1958 e de 2008. É interessante comparar esse filme com o mais coeso e objetivo Paralelo 10, de Silvio Da-Rin, que também acompanha uma viagem por territórios indígenas.

Em Coração do Brasil, alguns dados potencialmente interessantes acabam submergindo na linearidade um tanto monótona da viagem. Um maior sentido de resistência por parte dos índios, se comparado com o tempo dos Villas Bôas, é algo que se insinua mas não consegue ser aproveitado dramaticamente. Da mesma forma, a idade avançada dos viajantes é motivo de duas ou três referências passageiras, mas não parece interessar muito ao olhar do documentarista.

Uma curiosidade, no entanto, se impõe: enquanto em 1958 a árdua chegada ao centro geográfico do país foi empreitada de anos, conduzida por instâncias governamentais, a expedição recente foi empreendimento pessoal, uma espécie de reunião de amigos para celebrar um feito do passado. Com coisas que não existiam há 50 anos, como GPS, câmeras de vídeo e o cansaço nos corpos batidos pelo tempo.

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