Críticas


QUERIDA, VOU COMPRAR CIGARROS E JÁ VOLTO

De: MARIANO COHN E GASTÓN DUPRAT
Com: EMILIO DISI, EUSEBIO PONCELA, ALBERTO LAISECA
20.04.2013
Por Marcelo Janot
Uma comédia amarga e criativa.

O filme anterior da dupla de cineastas argentinos Mariano Cohn e Gustavo Duprat, O Homem do Lado, tratava de um personagem que tinha sua vida transformada em inferno por um vizinho misterioso. Em sua nova produção, Querida, vou comprar cigarros e já volto, é o próprio diabo (o espanhol Eusebio Poncela, de A lei do desejo), a fim de se divertir um pouco, que surge na vida de Ernesto (Emilio Disi) para lhe propor um pacto: se ele topar voltar ao passado por 10 anos mantendo suas lembranças, ao retornar será recompensado com 1 milhão de dólares. A diferença entre os dois filmes é que enquanto no primeiro a reação às atitudes do vizinho enfatizava a arrogância e a mesquinhez do protagonista, um arquiteto yuppie, dessa vez tudo o que o diabo faz é permitir que Ernesto se confronte com sua própria mediocridade. Ou seja, Ernesto não "vende a alma ao diabo" no sentido clássico, para realizar seus desejos. Ele é que deveria conquistá-los por seus próprios méritos.

De Frank Capra (A Felicidade Não Se Compra) a Claudio Torres (O Homem do Futuro),  a possibilidade de voltar no tempo para visitar ou tentar mudar o próprio passado é um tema recorrente no cinema: com variações, quase sempre resultam em fábulas recheadas de lições de moral. E inevitavelmente sugerem ao espectador que se coloque na mesma situação: afinal, o que você faria se tivesse a chance de reviver 10 anos de seu passado?

A premissa por si só já é instigante, e Querida, vou comprar cigarros e já volto se diferencia dos outros filmes pela maneira de contá-la. Ele é baseado num conto do escritor argentino Alberto Laiseca, que aparece em cena como um elemento extradiegético que vai não só narrar a história como tecer comentários sobre o rumo dos personagens que criou. Esse dispositivo permite que os realizadores acentuem o aspecto amargo da comédia, que parece inspirada pelo cinema dos irmãos Coen, debochando da mediocridade de Ernesto no limite do sadismo.

Os acontecimentos que se sucedem nas diferentes etapas da volta ao passado de Ernesto sugerem que o destino seja ditado não pelo acaso ou por alguma interferência externa divina (ou diabólica), mas sim pela sua falta de talento para torná-lo melhor, relativizando a importância do dinheiro e da fama na busca pela felicidade. Isto é associado a assuntos do presente, como o sucesso dos reality shows, o terrorismo e os direitos autorais. Algumas soluções para tratar desses tópicos são mais criativas que outras, mas a performance do veterano Emilio Disi, junto com a deliciosa narração de Laiseca, fazem do filme no mínimo uma divertida fantasia cômica.

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