Críticas


O ABISMO PRATEADO

De: KARIM AÏNOUZ
Com: ALESSANDRA NEGRINI, THIAGO MARTINS, OTTO JR.
29.04.2013
Por Daniel Schenker
O cineasta investe num trabalho econômico na utilização das falas, preenchido pelo som ambiente.

Karim Aïnouz é um cineasta que não teme projetos arriscados. Em “O abismo prateado”, aposta num certo vazio ao quase abrir mão de contar uma história – pelo menos, no sentido convencional. Acontece pouca coisa ao longo do filme, centrado tão-somente na brusca desestabilização de uma mulher, Violeta (Alessandra Negrini), a partir do instante em que ouve um recado do marido, Djalma (Otto Jr.), no celular.

Na metade inicial, o diretor não se vale de muletas para apresentar a via-crúcis da protagonista. Investe num trabalho econômico na utilização das falas, preenchido pelo som ambiente. Os barulhos da cidade (as ruas, as obras, o mar) e dos espaços fechados (a música na boate, o ar-refrigerado no motel, o uso de instrumentos de consultório dentário) invadem a tela. Os sons aumentam a sensação de exasperação, já evidente na agoniada peregrinação de Violeta, ao mesmo tempo em que podem ser empregados como tentativas de sobreposições aos insuportáveis ruídos internos da personagem, impossibilitada de decodificar o enigma no qual se vê subitamente envolvida. Em todo caso, o destaque destinado ao som ambiente sublinha que o movimento do mundo segue inalterado diante do sofrimento individual.

À medida que a projeção avança, os sons se tornam menos frenéticos. Na quietude da noite, a praia e o aeroporto surgem silenciosos. E Violeta conquista algum apaziguamento na interação imprevista com uma menina (Gabriela Pereira) e seu pai, Nassir (Thiago Martins). Daí para frente, porém, “O abismo prateado” não se mantém tão instigante. Fica a impressão de que Aïnouz não conseguiu abdicar totalmente da segurança propiciada por um enredo mais identificável ao promover um encontro entre personagens que, apesar das diferenças (Violeta tem um filho e Nassir, uma filha; ela quer viajar para o Sul e ele, para o Norte), revelam semelhanças em suas jornadas solitárias. O cineasta negocia a radicalidade da proposta, mas muito da força do filme é preservada graças à excelente atuação de Alessandra Negrini, que monopoliza a atenção do espectador.

“O abismo prateado” guarda conexões com as produções anteriores de Aïnouz, em especial “O céu de Suely” (2006) e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” (2009), dirigido em parceria com Marcelo Gomes, ainda que ambos se passem no sertão e não na cidade grande. Em relação ao primeiro, o cineasta volta a extrair do elenco um registro interpretativo calcado em naturalismo refinado que rompe com um padrão de representação tradicional. No que diz respeito ao segundo, Aïnouz retoma a temática da desolação afetiva – movido, aqui, pela inspiração na música “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque – e continua estimulando a imaginação do espectador ao optar pela ausência (antes da figura do ator, cuja “presença” se dava “apenas” por meio da voz, agora através da disposição em não explicar em detalhes as situações).



Crítica publicada no jornal O Globo em 26/04/2013

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário