Críticas


AMOR PROFUNDO

De: TERENCE DAVIES
Com: RACHEL WEISZ, TOM HIDDLESTON, SIMON RUSSELL BEALE
13.05.2013
Por Marcelo Janot
Após um prólogo espetacular, o filme peca por tratar um tema de tamanha combustão e dramaticidade com uma calculada frieza.

"Amor Profundo" começa com a leitura, em off, da carta-suicídio de Hester para seu amado Freddie, tendo ao fundo os créditos que anunciam ser o filme baseado na peça "The Deep Blue Sea", do dramaturgo inglês Terence Rattigan (1911-1977). O que se vê em seguida é espetacularmente cinematográfico: um prólogo de quase 10 minutos que começa com um plano de grua noturno em que a câmera sai de um quintal escuro cheio de escombros para encontrarmos Hester (Rachel Weisz, em grande interpretação) na janela do terceiro andar de uma casa modesta. Corta para o lado de dentro do quarto, um belíssimo contra-luz no momento em que ela fecha a cortina. Em seguida, o ritual do suicídio sendo preparado (e registrado) cuidadosamente: os pés descalços, as pílulas pra dormir, a carta sobre o móvel, as moedas que carregam o dispositivo de gás e finalmente o repouso na cama rumo à eternidade. Ao som do "Concerto para Violino" de Samuel Barber, entendemos sua infelicidade ao lado de um homem mais velho e a descoberta da paixão por Freddie (Tom Hiddleston).

Após esse prólogo tão belo e impactante, à altura do que se viu em "Melancolia", de Lars Von Trier, o diretor Terence Davies cede à estrutura teatral do texto, calcada sobretudo nos diálogos e na força das interpretações do elenco. A história da jovem que trocou o casamento estável com um juiz pela relação apaixonada com um piloto da Força Aérea Britânica tem um forte parentesco com filmes como "Desencanto", de David Lean. Mostra não só o dilema amoroso feminino numa sociedade hostil como também abre espaço para a crônica de uma Inglaterra dos anos 50 ainda depauperada pelos efeitos da guerra – interessante observar como o ex-combatente que se torna um sujeito instável emocionalmente, sem perspectivas de reinserção social, virou um personagem recorrente no cinema.

"The Deep Blue Sea" já havia sido filmado por Anatole Litvak em 1955, com Vivian Leigh e Kenneth More, que acabou levando o prêmio de melhor ator em Veneza pelo papel, mas há poucas semelhanças entre ambos. Curiosamente, ele foi buscar inspiração para o movimento de câmera na abertura e no encerramento (que faz o trajeto inverso) no despretensioso musical "Corações Enamorados", estrelado por Doris Day e Frank Sinatra em 1954, que repete a mesma situação, com a câmera da rua para a janela e vice-versa. Tal comparação acentua o contraste entre o mundo idílico e de cores fortes e artificiais da produção hollywoodiana com o ambiente desolador e sombrio da Inglaterra de "Amor Profundo".

Terence Davies também pontua a trama com referências à sua própria obra: além dos ambientes fechados e quase monocromáticos, "Amor profundo" importa de "Vozes Distantes" (1988), seu filme mais conhecido, os longos trechos musicais que traduzem o estado de espírito dos personagens, como na cena em que Hester e Freddie cantam com os camaradas num pub e depois dançam "You belong to me". São momentos que, juntamente com o prólogo, dão vida a um filme bonito, mas que peca por tratar um tema de tamanha combustão e dramaticidade com uma calculada frieza.

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário