Críticas

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DOSSIÊ JANGO

De: PAULO HENRIQUE FONTENELLE
05.07.2013
Por Carlos Alberto Mattos
Um thriller documental que ilumina o passado e faz pensar sobre o presente

O clássico documentário Jango, de Silvio Tendler, cita placidamente a morte de João Goulart em sua estância na Argentina, em 1976, como resultante de um ataque cardíaco. Por alguma razão, em 1984 Tendler não se interessou ou não confiou na hipótese de assassinato. Mas ela já circulava entre parentes e políticos.

Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, chega agora como um doc-investigação sobre as circunstâncias da morte do ex-presidente. A tese do assassinato por troca criminosa de medicamentos vem sendo sustentada por diferentes personagens desde o início dos anos 1980. A partir de argumento de Paulo Mendonça e Roberto Farias, sócios no Canal Brasil, produtor do filme junto com o Instituto João Goulart, Fontenelle costura uma série de depoimentos, indícios e paralelos que apontam para uma eliminação de Jango dentro dos planos da Operação Condor. Como ele, num período de poucos meses diversos políticos sul-americanos cassados ou exilados foram vítimas de mortes estranhas por ataque cardíaco, suicídio e acidentes automobilísticos como o de Juscelino Kubitschek. Os casos de envenenamento e o desaparecimento de testemunhas aumentam o nível de suspeição.

O roteiro é muito habilidoso na criação de uma espiral crescente de informações, envolvendo auxiliares próximos de Jango e pessoas envolvidas no seu exílio uruguaio. Tudo culmina com um testemunho de incrível contundência, obtido numa prisão brasileira pelo filho de Jango, João Vicente Goulart. Este, aliás, parece ser o único parente a manter-se ativo na apuração dos fatos. Do outro lado da discussão, o historiador Moniz Bandeira, que acompanhou Jango nos primeiros anos de exílio, fornece o contraponto e sugere uma teoria da conspiração. O filme não o poupa ao destacar uma explicação pitoresca para a suposta morte natural de Goulart.

Vários participantes tomam a cautela de ressalvar que não se pode afirmar uma coisa nem outra. O tom predominante é de que a investigação deve prosseguir até que se prove isso ou aquilo. Em tempos de Comissão da Verdade, e enquanto países vizinhos já trataram de punir os algozes da ditadura, é realmente inadmissível que a tese de assassinato de Jango ainda não tenha sido objeto de um inquérito oficial. Foram, aliás, investigadores argentinos que encaminharam um pedido de exumação do corpo. Em maio último, finalmente, a Comissão da Verdade anunciou a possibilidade de pedir a exumação.

Em termos de realização, Dossiê Jango não disfarça muito seu propósito de apenas reunir e articular informações. Uma trilha musical de piano cria um leito sonoro anódino para a sucessão de depoimentos, algo bastante dispensável na maior parte do tempo. Os materiais de arquivo trazem preciosidades já conhecidas (como as cenas de Jango na China) e algumas menos difundidas, como imagens coloridas de escaramuças de rua em 1968, obtidas nos EUA pela equipe de pesquisa liderada por Antonio Venancio.

O formato discreto é compensado por um ótimo senso de narrativa, que sidera a atenção do espectador como num bom thriller. Ao mesmo tempo, o filme é um chamado à responsabilidade de quem trabalha com a restauração da verdade em nossa História recente. E também um paralelo interessante para se pensar o que o Brasil vive hoje, com a rejeição selvagem da classe política e os riscos de desestabilização de um governo democrático.

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