Críticas


APENAS O VENTO

De: BENEDEK FLIEGAUF
Com: KATALIN TOLDI, GYÖNGYI LENDVAI, LAJOS SÁRKÁNY
18.08.2013
Por Daniel Schenker
A atmosfera ameaçadora bate na tela de forma concreta

Os personagens de Apenas o Vento – integrantes de uma família que sobrevive em condições precárias numa área isolada – dão a sensação de que não têm como escapar do destino trágico reservado a outros ciganos da região, exterminados durante a noite. Essa atmosfera ameaçadora bate na tela de forma bastante concreta – não apenas pela história em si (baseada em atos criminosos cometidos contra ciganos no interior da Hungria, em 2008 e 2009), mas pelo domínio do diretor Benedek Fliegauf em relação às ferramentas cinematográficas, a exemplo da habilidade com que filma sequências sem fala, da expressiva utilização do som ambiente, da trilha adequadamente pontual, da câmera instável e próxima dos atores (focando rostos e nucas) e do registro interpretativo econômico conquistado junto ao elenco.

A menina Anna (Gyöngyi Lendvai) caminha de cabeça baixa. Oprimida, procura passar invisível para não se comprometer, impressão realçada na única cena artificial: aquela em que testemunha o ataque a uma colega no vestiário e não busca socorro. O filme – consagrado no Festival de Berlim de 2012 com o Grande Prêmio do Júri – acompanha um dia na via-crúcis dos personagens, que vagam sozinhos por espaços ermos: Mari (Katalin Toldi), a mãe, trabalha como faxineira e, apesar de acumular empregos, se endivida; Anna, a filha, estuda; Riò (Lajos Sárkány), o filho, perambula sem rumo, se mistura a um grupo de junkies e se refugia numa gruta; e o avô (György Toldi) permanece preso à cama. Não contam nem com a ajuda de um omisso marido/pai (Gergely Kaszàs) – radicado no Canadá, para onde sonham se mudar – e nem com a intervenção de uma polícia conivente com as chacinas.

Um panorama decadente, arruinado, destituído de perspectivas, aterrador, repleto de personagens sem oportunidades ou mergulhados na letargia. O final da linha se impõe de modo contundente para quase todos em meio a uma mescla de loucura e miséria. É muito improvável que o espectador fique indiferente ao cinema do húngaro Fliegauf.

Crítica publicada no jornal O Globo em 16/08/2013

Voltar
Compartilhe
Deixe seu comentário



Outros comentários
    613
  • Luiz Fernando SouzaLima
    19.09.2013 às 19:37

    O menino-cigano deveria morrer pois ele cresce, disse um dos prováveis assassinos. Nada diferente do Brasil. Acontece diariamente com os nossos DI-MENORES CIGANOS, pois eles crescem.