Críticas


BLING RING

De: SOFIA COPPOLA
Com: ISRAEL BROUSSARD, KATIE CHANG, EMMA WATSON
18.08.2013
Por Daniel Schenker
Suscita certa dose de incômodo ao retratar uma juventude vazia

Sofia Coppola apresenta, em The Bling Ring, um mundo à parte, formado por pessoas que deixam as chaves de suas mansões debaixo do carpete de entrada, os carros destrancados com a carteira dentro e os endereços à disposição na rede. Não por acaso, os jovens integrantes da gangue do título invadem as suntuosas propriedades de celebridades sem maiores dificuldades após verificarem que elas estarão fora. Esse universo paralelo não saiu da mente criativa da cineasta. De fato, adolescentes sem nada na cabeça além do fascínio por glamour e status transitaram pelas casas de estrelas da moda e roubaram utensílios de grife até serem capturados. As ousadas incursões renderam artigo da jornalista Nancy Jo Sales, publicado na revista Vanity Fair, que também escreveu um livro a partir do material compilado, que, agora, desembarca nas telas.

Exibido na mostra Un Certain Regard, no último Festival de Cannes, Bling Ring, coloca o público diante de uma juventude vazia, consumista, autocentrada, destituída de ideais, seduzida pelo risco e dedicada ao culto a astros do momento. Um panorama simbolizado por um rapaz – Marc (Israel Broussard) – e algumas garotas – Rebecca (Katie Chang), Nicki (Emma Watson), Chloe (Claire Julien) e Sam (Taissa Farmiga) –, que se juntam em Calabasas (Califórnia) e passam as noites louvando o armário excêntrico e excessivo de Paris Hilton e as figuras de Angelina Jolie, Jude Law, Kirsten Dunst, Orlando Bloom e Lindsay Lohan. A cada conquista, eles correm em êxtase para as baladas, determinados a ostentar seus feitos. A diretora do elogiado Encontros e Desencontros (2003) e do polêmico Maria Antonieta (2006) não traça um retrato exatamente novo, mas consegue suscitar certa dose de incômodo ao expor a deturpação de valores imperante na contemporaneidade. Aborda um campo temático com o qual tem intimidade: o do conturbado terreno da fama – vale citar ainda Um Lugar Qualquer (2010).

A estrutura do filme, marcada pelo entrelaçamento entre as peripécias dos jovens e os depoimentos que prestam depois de serem pegos, não é muito singular. Entretanto, o problema principal reside na falta de evolução da história. Tudo parece estacionado ao longo da projeção, como se a cineasta reiterasse constantemente o que já explicitou. Nesse sentido, Bling Ring é uma obra de fôlego curto, apesar da econômica duração (cerca de 90 minutos). Essa impressão não se dissolve mesmo quando os personagens, norteados por uma falsa sensação de onipotência, começam a perder o controle, enveredando cada vez mais pelas drogas. De qualquer modo, Sofia Coppola confirma sua competência, evidenciada no emprego do som para a construção de uma tensão crescente e em sequências bem realizadas, como aquela em que a câmera registra, ao longe, a ação dos jovens numa casa envidraçada. A questão da sexualidade, concentrada em Marc, é apenas tangenciada. Natural: não estava no foco da diretora, que volta a assinar um filme com potencial para atrair o interesse de uma ampla faixa de espectadores.

Crítica publicada no jornal O Globo em 15/08/2013

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