Críticas


KIPPUR

De: AMOS GITAÏ
Com: LIRON LEVO, TOMER RUSSO, URI RAN-KLAUSNER, YORAM HATTAB
14.09.2003
Por Daniel Schenker
Exasperação e um longínquo refrigério

Há um contraste sonoro brutal em Kippur que não diz respeito apenas a oposição entre barulho e silêncio, ainda que ambos sejam devidamente potencializados em diversos momentos deste filme de Amos Gitaï, mas também a convivência entre uma melodia que traz em si todo o ímpeto vital, a eletricidade juvenil, e o ruído surdo da pressão a que integrantes de uma unidade de resgate se vêem submetidos quando jogados em meio a paisagem desértica e repleta de explosões e gritos de desespero da Guerra do Yom Kippur, marcada pela invasão dos exércitos sírios e egípcios ao território israelense em pleno feriado judaico do Dia do Perdão, em 1973. A música da vida rasga a da dor, apesar desta última ser bem mais freqüente, e contracena com ela em alguns instantes de Kippur , como quando Gitaï, mesmo em meio a todo o caos do campo de batalha, consegue provocar uma espécie de suspensão da realidade conectando os homens com a sua esfera íntima.



Trazendo à tona ecos das experiências pessoais sem jamais abrir mão da voz coletiva, do movimento da massa, Kippur é também um trabalho que busca o máximo de veracidade sem deixar de parecer cinematográfico. Por mais cruas que sejam as suas imagens, Amos Gitaï não deixa de evidenciar que está escorado em recursos de cinema (o som, a trilha sonora, a luz) que, aqui, são muito bem utilizados na construção de uma gramática sensorial, evoluindo da exasperação absoluta a um longínquo refrigério. Como não há golpe ou artificialidade, Gitaï não tinha motivos para camuflar os seus mecanismos.



A impressão de encenação desponta justamente em algumas seqüências contundentes, momentos em que o diretor buscou, com certeza, o máximo de proximidade entre o material ficcional e a realidade – até porque esta ligação existe, tendo em vista que Amos Gitaï lutou como reservista do exército israelense na Guerra do Yom Kippur. Só que para atingir esta aproximação, o cineasta parece ter apostado mais na reconstituição factual e geográfica e no contato entre os atores e os sobreviventes da guerra (não por acaso, a personagem principal traz um dos sobrenomes de Gitaï e algumas outras, os nomes verdadeiros de seus intérpretes) do que nas atuações propriamente ditas. Não que o elenco esteja mal, mas o fato é que o espectador dificilmente conseguirá sair do cinema desacreditando do fato de ter estado diante de personagens/atores e não de pessoas reais.



Em que pese a perda deste sentido de atualidade, Kippur , porém, não dá refresco ao público. Lançado com atraso (sua realização data de 2000) e excessiva discrição no circuito carioca, o filme não se contenta em dar conta de feitos limitados, como provocar a conexão entre o espectador e a perplexidade do horror da guerra e/ou a insensibilidade decorrente da sucessão de lances sangrentos. Vai mais além, suscitando uma agonia que tende a superar o grau de incômodo gerado pelo ótimo Kadosh , trabalho em que focalizava os costumes dogmáticos da facção judaica ortodoxa. Kippur cobra o ingresso da platéia ao se firmar como uma experiência árida para todos e justamente por isto não deve conseguir se sustentar durante muito tempo em cartaz. Mas trata-se, sem dúvida, de um filme importante. A cena final, tentativa de fecho redondo buscando um elo com uma das imagens iniciais (em que um soldado e sua namorada manuseiam sobre os próprios corpos tintas de cores nada ocasionais), perde impacto com o foco na mulher, em pose de meditação, no começo da seqüência.



# KIPPUR

França/Israel, 2000

Direção: AMOS GITAÏ

Produção: MICHEL PROPPER, AMOS GITAÏ

Roteiro: AMOS GITAÏ, MARIE-JOSÉ SANSELME

Fotografia: RENATO BERTA

Montagem: MÔNICA COLEMAN, KOBI NETANEL

Som: ALEX CLAUDE

Música: JAN GARBAREK

Direção de Arte: MIGUEL MARKIN

Elenco: LIRON LEVO, TOMER RUSSO, URI RAN-KLAUSNER, YORAM HATTAB

Duração: 123 minutos

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