Críticas


FESTIVAL DO RIO 2003: ÀS CINCO DA TARDE

De: SAMIRA MAKHMALBAF
Com: AGHELEH REZAIE, ABDOLGANI YOUSEFRAZI, RAZI MOHEBI
25.09.2003
Por Carlos Alberto Mattos
AFEGANISTÃO ANO ZERO

O poema La Cogida y la Muerte, escrito por Federico Garcia Lorca para prantear a morte de um toureiro amigo, entra como Pilatos no Credo em Às Cinco da Tarde. Samira Makhmalbaf não lida com as emoções de um confrontação a quente, como numa tourada, mas com o estado de ruína em que ficou o Afeganistão logo após a derrubada dos Talibãs pelos EUA. Ruínas que impressionam como cenário físico e espiritual.



Grandes grupos humanos se deslocam. São refugiados de volta, sem eira nem beira. São meninas que retornam às escolas para mostrar a cara e discutir política. Mas tudo isso é mero pano de fundo para a história da pobre Nogreh, que meio sonha, meio brinca com a idéia de se candidatar a presidente da república. O humor, no entanto, é constantemente solapado por um realismo cru, que não oferece qualquer esperança. Em lugar do país liberado que a mídia internacional apregoava, o Afeganistão de Samira é um lugar profundamente dividido, um beco (ou melhor, um deserto) sem saída. A lembrança do Rosselini de Alemanha Ano Zero não é de todo descabida.



O pai de Nogreh é um fundamentalista que se volta contra as paredes para não encarar uma mulher sem a burca. O povo se amontoa em ruínas de cidades ou morre à míngua, junto com seus cavalos, no meio do nada. As forças de paz não têm a menor idéia do motivo de estarem ali. Até Benazir Bhutto, a bela ex-primeira Ministra paquistanesa idolatrada pelas jovens afegãs, teria favorecido o regime talibã. Nesse quadro, os fetiches e ilusões de independência de Nogreh só podem ter os dias contados. O filme deixa na poeira qualquer resquício de triunfalismo.



O roteiro, meio desengonçado, baseia-se em livro do pai de Samira, o consagrado Mohsen Makhmalbaf, também autor da montagem do filme. A filha não chega a ser tão oportunista e antiética como o pai em A Caminho de Kandahar. Mas divide a mesma atitude de exploração compungida da miséria alheia. Exploração até mesmo estética, quando as belas formações de mulheres encapuzadas chegam a lembrar, em contexto menos propício, as imagens de instalações de Shirin Neshat.



Samira tinha oito anos de idade quando atuou em O Ciclista, filme do pai sobre refugiados afegãos. Aos 23, é cineasta consagrada no mundo inteiro sem ter, a rigor, demonstrado tantos méritos para isso. Às Cinco da Tarde contenta-se com os limites da mera exposição de uma catástrofe humanitária.



# ÀS CINCO DA TARDE (Panj É Asr)

Irã/França, 2003

Direção e roteiro: SAMIRA MAKHMALBAF

Montagem: MOHSEN MAKHMALBAF

Elenco: AGHELEH REZAIE, ABDOLGANI YOUSEFRAZI, RAZI MOHEBI

Duração: 105 minutos

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