Críticas


O MORDOMO DA CASA BRANCA

De: LEE DANIELS
Com: FOREST WHITHAKER, OPRAH WINFREY, ROBIN WILLIAMS
01.11.2013
Por Octavio Caruso
Por trás de cada emoção manipulada com mão pesada, o roteiro é profundamente preconceituoso

Assim como o similar e superestimado “Histórias Cruzadas”, o novo filme do diretor Lee Daniels é um projeto que essencialmente vê o negro pelo olhar de uma sociedade branca, o que surpreende, já que ele é negro. Por trás de cada emoção manipulada com mão pesada, o roteiro é profundamente preconceituoso, pois utiliza os mesmos estereótipos da época em que os “generosos” brancos concederam à Hattie McDaniel o privilégio de desfilar no mesmo tapete vermelho, como se branca fosse. Infelizmente é dessa forma que os racistas disfarçados pensam. O prêmio não modificou sua condição como atriz na indústria, pois continuou atuando em variações da “Mammy” até o fim da vida.

É um tipo de “Blaxploitation”, só que sem coragem alguma. Não ajuda o fato de que, como cinebiografia, modifica tremendamente os fatos na vida do homenageado. Não podemos considerar nem como “livremente” baseado, já que o tipo caricatural que evidencia é criado unicamente para alcançar os efeitos dramáticos e desejos ideológicos do roteirista Danny Strong. Com uma clara e destorcida visão política, ele transforma os presidentes democratas em “ursinhos carinhosos” que se importam demais com os direitos dos negros, incluindo Lyndon B. Johnson, um dos maiores racistas na história americana. Strong evidencia no segundo ato a batalha pela igualdade entre os negros, porém com impacto anestesiado pela desnecessária utilização de subtramas, como a possível infidelidade da esposa de Cecil (Whitaker), o homem de origem humilde que viria a trabalhar como mordomo de vários presidentes americanos, de Dwight Eisenhower (Robin Williams visivelmente desconfortável) a Ronald Reagan (Alan Rickman). É como se os realizadores não acreditassem no potencial da trama, apelando então para desgastados truques de manipulação emocional.

Uma cena em especial transparece esse sutil preconceito, quando a personagem de Oprah Winfrey estapeia seu filho, após saber que ele havia entrado para o movimento “Black Power” e havia criticado seu pai (Forest Whitaker) por ser um mordomo. A cena (sutil homenagem ao clássico “No Calor da Noite”) nos conduz a vibrar por sua atitude. A resistência armada feita pelos brancos é nobre e historicamente valorizada, enquanto qualquer imagem dos negros, que não seja uma resistência pacífica e subserviente, imediatamente é algo a ser duramente repudiado.

Fica claro que um dos lados recebe um olhar mais terno e condescendente. O filme oferece a história desta “guerra”, como é usual, pelo ponto de vista dos vencedores. Negros sendo salvos por brancos, mas continuando em funções servis (Cecil nunca contribui com ideias, apenas assiste os acontecimentos). Existem muitos negros cientistas, médicos e professores, com histórias de vida maravilhosas, mas que nenhum produtor de Hollywood se interessa em contar. Qual será a razão?

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Outros comentários
    879
  • Martius
    04.11.2013 às 10:42

    A plástica é a de sempre. Recomendaria o filme, no entanto, pela iniciativa de mostrar longo panorama da história americana, mostrando inclusive várias formas de reação dos negros à discriminação que sofriam/sofrem naquele país. Ignoro se o personagem principal se comportava daquela forma intelectualmente submissa, mas ressai no filme o fato de o mesmo chegar ao final com a consciência de que era discriminado e de que servira o tempo todo para compor um quadro racista.