Críticas


BLUE JASMINE

De: WOODY ALLEN
Com: CATE BLANCHETT, SALLY HAWKINS, ALEC BALDWYN, BOBBY CARNAVALE
14.11.2013
Por Octavio Caruso
Garantia de entretenimento superior e (algo cada vez mais raro na indústria) intelectualmente estimulante.

Desde Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen não compunha uma personagem feminina com tamanha paixão pelos detalhes, sem abraçar a sempre confortável caricatura de extremos. Completamente antenado com o mundo de hoje, o roteiro estabelece uma jovial e mordaz sátira social abordando distinção de classes em um panorama pós-crise econômica. Allen abdica conscientemente de algumas de suas características narrativas, como sua entrega ao sentimentalismo, em prol de uma construção de diálogos mais corajosos, que não poupam seus personagens em nenhum momento. A generosidade com suas criações nunca foi o forte do diretor, mas o sadismo ideológico dessa vez se assemelha em vários momentos à forma como o escritor Tennessee Williams escolhia abordar suas tramas. Existe algo de R.W. Fassbinder, na forma como ele dedilha a tragédia da protagonista.

Blue Jasmine tem na interpretação multifacetada de Cate Blanchett, uma bela homenagem à personagem Blanche DuBois, eternizada na obra Um Bonde Chamado Desejo. Ao compor a labiríntica mente instável da protagonista, após assistir todos os seus sonhos de grandeza destruídos implacavelmente pelos pecados de seu marido (Alec Baldwin em ótima atuação), a excelente atriz nunca resvala, como é comum nas obras do diretor, na usual imitação de tiques eternizados por ele. Sua angústia é assustadoramente humana quando comparada às explosões pantomímicas cômicas de Allen. Será coincidência que a nova musa do diretor já tenha interpretado no teatro a clássica anti-heroína trágica de Williams, voltando dessa vez no que poderia ser chamado de uma elegante atualização?

Jasmine, uma mulher psicologicamente em queda livre após ser obrigada a se afastar de uma vida de privilégios e ostentação, se vê obrigada a viver da solidariedade de sua generosa irmã Ginger (Sally Hawkins), escondendo uma profunda frustração debaixo de um fino verniz de empáfia. O namorado da irmã, vivido por Bobby Cannavale, atualiza em gestos e atitudes bruscas a força indomável da natureza personificada por Marlon Brando, na clássica adaptação da obra de Williams, dirigida por Elia Kazan.

Assistir um diretor veterano e prolífico como Woody Allen, que não precisa provar mais nada, ousando novas abordagens com um resultado tão eficiente, não somente é garantia de um entretenimento superior no gênero, como é (algo cada vez mais raro na indústria) intelectualmente estimulante. Ele brinca com as nossas percepções no momento em que começamos a nos convencer de como o seu personagem irá agir, o que nos leva a automaticamente exercer um julgamento moral. O roteiro então nos acerta um murro “com luva de pelica”, ao nos fazer perceber que somos tão (ou mais) vulneráveis quanto o potencial alvo de nossas pedras. Afinal, testemunhamos as várias “Jasmines” que existem em nossa sociedade, aspirando apenas o “ter” (agregar valor à futilidade), vivendo de uma ilusão lânguida que corrompe as melhores virtudes humanas.

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Outros comentários
    920
  • Fernanda Trevisan
    14.11.2013 às 12:49

    Gosto da forma como o Caruso escreve, sem revelar demais a trama. Uma ótima análise!
  • 1044
  • Eliane
    08.12.2013 às 10:29

    Excelente filme de W.Allen, que não cai no moralismo de apresentar um personagem do bem e outro do mal.Ambas as irmãs apresentam lados tragi-cômicos.Cada uma vivendo de acordo com suas verdades/mentiras. E o espectador,que se vire com as suas próprias.