Críticas


OS FILHOS DA MEIA-NOITE

De: DEEPA MEHTA
Com: SHAHANA GOSWAMI, SHABANA AZMI, SATYA BHABHA, RAJAT KAPOOR
22.11.2013
Por Octavio Caruso
Beleza estética e problemas no roteiro

A diretora indiana Deepa Mehta (do ótimo “Às Margens do Rio Sagrado”, de 2005) entrega um dos filmes esteticamente mais bonitos dos últimos anos, porém erra a mão no roteiro, escrito em parceria com o autor da premiada obra original: Salman Rushdie. Talvez a presença dele (participa até na narração), que não possui experiência com a linguagem cinematográfica, tenha sido um desserviço para o resultado final, já que fica nítido o desejo de abraçar narrativamente todos os vários arcos do épico literário, comprimindo as subtramas em pouco mais de duas horas. Uma edição menos emocionalmente envolvida com o material conseguiria aparar as muitas arestas e se focar na essência da história. Para os mais jovens entenderem melhor, “Os Filhos da Meia-Noite” comete o mesmo erro dos filmes da franquia “Harry Potter”, com um apego exagerado pelas linhas do livro, que acaba cegando a criatividade para as inúmeras opções que o audiovisual oferece em uma adaptação.

Saleem (Satya Bhabha) funciona narrativamente como um “Forrest Gump” (escrito seis anos após o livro de Rushdie), nos conduzindo pela mão através de 30 turbulentos anos na história da Índia. Assistimos seu ponto de vista sobre a militarização do Paquistão e a criação de Bangladesh, intercalados por alegóricos pesadelos profundos em simbologia. Mas para cada cenário de fome, desesperança e guerra, existe um elemento mágico (algumas cenas, como a bela visita da mãe nos sonhos do filho, me remeteram à “Trilogia do Deserto”, de Nacer Khemir), simbolizado pelos poderes especiais que todas as crianças nascidas após a meia-noite do dia 15 de Agosto de 1947 (marco histórico da independência do país), recebem.

Como em toda fábula, os personagens são muito mais interessantes e carismáticos em suas contrapartes infantis, mas nem mesmo a pegada folhetinesca que emoldura o terceiro ato consegue nos desestimular. É como se, na queda de braço entre o sistemático autor e a sensível diretora, conseguíssemos captar as bravas tentativas dela em potencializar a emotiva esperança de um povo exaurido na redenção prometida pelos seus filhos, em detrimento da sequência de “cartões postais” e aulas de história que são o foco de Rushdie. O equilíbrio nunca é alcançado, o filme tende a se arrastar bastante durante o segundo ato, mas o saldo final vale o preço do ingresso.

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